Os ciclos das taquaras e as aves na Mata Atlântica

Os ciclos das taquaras e as aves na Mata Atlântica

Marcelo Ferreira de Vasconcelos ([email protected])

A Mata Atlântica é considerada a região mais rica em taquaras do planeta. Em geral, as taquaras são plantas semélparas, isto é, que florescem e frutificam uma única vez – e morrem logo após. Há relatos de espécies que podem levar até 120 anos para frutificar. Nas espécies de taquaruçus (Guadua spp. – Figura 1) e de taquaras-pocas (Merostachys spp. – Figura 2), os ciclos podem ser maiores que 30 anos. Já as taquarinhas (Chusquea spp. – Figura 3) apresentam ciclos mais curtos, ao redor de 10 anos.

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Figura 1 – Floração de Guadua tagoara (Nees) Kunth, Serra do Caraça, MG (2007). Foto: L. N. Souza.

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Figura 2 – Frutificação de Merostachys fischeriana Rupr. ex Döll, Serra do Caraça, MG (2006). Foto: C. H. F. Vasconcelos.

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Figura 3 – Frutificação de Chusquea capituliflora Trin., Serra do Caraça, MG (2006). Foto: C. H. F. Vasconcelos.

Os ciclos de frutificação das taquaras são muito importantes para aves nômades, especializadas em se alimentar de suas sementes. A frutificação destas plantas, geralmente um recurso imprevisível no tempo e no espaço, atrai centenas ou milhares de indivíduos de diversas espécies de aves granívoras. Algumas destas aves são especialistas em se alimentar de sementes de taquaras, a exemplo da pararu (Claravis geoffroyi), do pixoxó (Sporophila frontalis), da cigarra-verdadeira (Sporophila falcirostris), da cigarra-bambu (Haplospiza unicolor – Figura 4) e do negrinho-do-mato (Amaurospiza moesta).

 

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Figura 4 – Haplospiza unicolor Cabanis, 1851, Serrinha do Alambari, RJ (1996). Foto: M. F. Vasconcelos.

Alguns autores sugeriram que várias aves granívoras sejam especialistas em espécies do gênero Guadua (Areta et al., 2009), ausentando-se de determinadas regiões por décadas. Sick (1997), em sua magnífica obra “Ornitologia Brasileira”, também afirmou que aves dependentes de sementes de taquaras podem chegar a diversas regiões, atraídas por estes recursos, mas se ausentando por vários anos após a frutificação destas plantas.

Para estas aves granívoras, encontrar taquaras com sementes na “colcha de retalhos” de pequenos fragmentos florestais que restaram na Mata Atlântica é uma tarefa extremamente árdua. Além disso, muitas destas aves são ilegalmente capturadas quando chegam em massa nos taquarais frutificados. Não é à toa que algumas estão ameaçadas de extinção, tais como a pararu, o pixoxó e a cigarra-verdadeira. Apesar de tão interessante, o estudo destas interações está apenas começando no Brasil e muito temos de pesquisar a respeito.

No entanto, não apenas as aves que se alimentam de sementes de taquaras estão intimamente associadas a estas plantas. Na Mata Atlântica, há várias espécies insetívoras, especialmente das famílias Thamnophilidae, Formicariidae, Furnariidae e Rhynchocyclidae, que têm as densas brenhas de taquaras como seu micro-habitat preferencial. Exemplos são: borralhara (Mackenziaena severa), papo-branco (Biatas nigropectus), trovoada-de-bertoni (Drymophila rubricollis), choquinha-da-serra (Drymophila genei), choquinha-de-dorso-vermelho (Drymophila ochropyga – Figura 5), tovaca-cantadora (Chamaeza meruloides – Figura 6), trepador-coleira (Anabazenops fuscus – Figura 7), trepador-quiete (Syndactyla rufosuperciliata) e olho-falso (Hemitriccus diops). Neste caso, após a morte de extensos tratos de taquarais frutificados, muitas destas espécies escasseiam-se nas matas, embora não haja nenhuma pesquisa sistemática a este respeito.

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Figura 5 – Drymophila ochropyga (Hellmayr, 1906), Serrinha do Alambari, RJ (1996). Foto: M. F. Vasconcelos.

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Figura 6 – Chamaeza meruloides Vigors, 1825, Serrinha do Alambari, RJ (1996). Foto: M. F. Vasconcelos.

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Figura 7 – Anabazenops fuscus (Vieillot, 1816), Serrinha do Alambari, RJ (1996). Foto: M. F. Vasconcelos.

Acima do limite das florestas, nos campos de altitude das mais altas serras do Sudeste do Brasil, vive a garrincha-chorona (Asthenes moreirae – Figura 8), que forrageia e nidifica principalmente em moitas da taquarinha Chusquea pinifolia (Nees) Nees, uma espécie bem característica deste ambiente (Figura 9).

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Figura 8 – Asthenes moreirae (Miranda-Ribeiro, 1906), Serra do Caparaó, MG (2001). Foto: M. F. Vasconcelos.

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Figura 9 – Moitas de Chusquea pinifolia (Nees) Nees, Serra do Caparaó, MG (2001). Foto: M. F. Vasconcelos.

No ramo da ornitologia, as sementes de taquaras atraem aves que, por sua vez, atraem observadores de aves e pesquisadores. No entanto, faltam coletar e identificar apropriadamente estas espécies de taquaras, além de tentar estudar melhor seus ciclos de frutificação. A coleta de taquaras não é tarefa simples. Há de se coletar, além dos ramos (com folhas, flores e frutos), os colmos com bainhas e os rizomas subterrâneos, muito importantes na identificação. Portanto, os naturalistas de “plantão”, interessados neste assunto, não devem deixar de levar a campo uma pequena pá em suas mochilas!

Referências e leituras sugeridas:

Alves, G.T.R. 2007. Aspectos da história de vida de Guadua tagoara (Nees) Kunth (Poaceae: Bambuseae) na Serra dos Órgãos, RJ. Dissertação (Mestrado em Ecologia e Recursos Naturais) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos.

Areta, J.I.; Bodrati, A. & Cockle, K. 2009. Specialization on Guadua bamboo seeds by three bird species in the Atlantic Forest of Argentina. Biotropica, 41:66-73.

Cestari, C. & Bernardi, C.J. 2011. Predation of the Buffy-fronted Seedeater Sporophila frontalis (Aves: Emberizidae) on Merostachys neesii (Poaceae: Bambusoideae) seeds during a masting event in the Atlantic Forest. Biota Neotropica, 11(3). Disponível em: http://www.biotaneotropica.org.br/v11n3/en/abstract?shortcommunication+bn0071103201. Acesso em: 30 de outubro de 2011.

Janzen, D. 1976. Why bamboos wait so long to flower. Annual Review of Ecology and Systematics, 7:347-391.

Liebsch, D. & Reginato, M. 2009. Florescimento e frutificação de Merostachys skvortzovii Sendulsky (taquara-lixa) no estado do Paraná. Iheringia, Série Botânica, 64:53-56.

Mazzoni, L.G.; Vasconcelos, M.F.; Perillo, A.; Morais, R.; Malacco, G.B.; Benfica, C.E.R.T. & Garcia, F.I.A. 2016. Filling gaps in the distribution of Atlantic Forest birds in Minas Gerais, southeastern Brazil. Atualidades Ornitológicas Online, 190:33-47.

Olmos, F. 1996. Satiation or deception?: Mast-seeding Chusquea bamboos, birds and rats in the Atlantic Forest. Revista Brasileira de Biologia, 56:391-401.

Sick, H. 1997. Ornitologia Brasileira. Nova Fronteira, Rio de Janeiro.

Vasconcelos, C.H.F. & Vasconcelos, M.F. 2016. Observations of the Uniform Finch Haplospiza unicolor Cabanis, 1851 (Passeriformes: Thraupidae) and other birds feeding on seeds of four bamboo species in the Atlantic Forest of the southern Espinhaço Range, Minas Gerais, Brazil. Atualidades Ornitológicas, 189:8-9.

Vasconcelos, M.F.; Vasconcelos, A.P.; Viana, P.L.; Palú, L. & Silva, J.F. 2005. Observações sobre aves granívoras (Columbidae e Emberizidae) associadas à frutificação de taquaras (Poaceae, Bambusoideae) na porção meridional da Cadeia do Espinhaço, Minas Gerais, Brasil. Lundiana, 6:75-77.

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