Tudo sobre a Figueira, a árvore que inspirou Buda

Tudo sobre a Figueira, a árvore que inspirou Buda

Quem são as Figueiras?

Figueira é o nome dado às plantas que pertencem ao gênero Ficus.

Espécies desse gênero, geralmente têm crescimento rápido e podem se tornar árvores bem grandes.

Uma das características mais marcantes das figueiras são seus frutos, cujo nome técnico é “sicônio”, mas a maioria das pessoas os conhecem como “figos” mesmo.

Os frutos das figueiras na verdade são conjuntos de pequenos frutos, chamados pelos botânicos de “infrutescências”.

Carnosos e nutritivos, provavelmente esses frutos começaram a ser muito usados por povos do Oriente Médio no passado por serem fáceis de conservar quando secos e servirem como mantimento para atravessar regiões secas.

Outra característica importante das figueiras são suas raízes, que surgem do caule e crescem para baixo até alcançar o solo. Em seguida, aumentam de diâmetro até se tornarem novos troncos.

Esse processo continua de maneira subterrânea e essas raízes se estendem por uma área muito ampla para dar sustentação à própria planta.

Figueira
Troncos da figueira Ficus religiosa encontrada no Parque Ibirapuera

As Figueiras e a Biodiversidade

Existem cerca de 800 espécies de figueiras distribuídas por todo o mundo, principalmente nas zonas tropical e subtropical do planeta.

Acredita-se que o centro de origem do grupo é a Eurásia, porção de terra hoje ocupada pela Europa e Ásia. A partir daí, disseminou-se para outras regiões do mundo na ocasião em que o planeta possuía apenas um grande continente, a Pangeia.

Atualmente, com exceção da Antártica, existem espécies de figueiras originárias de todos os continentes da Terra.

As diferentes espécies de figueiras são utilizadas pelo Homem há muito tempo e possuem diversos usos, tais como:

No Brasil, estima-se que ocorram 93 espécies de figueiras, das quais 76 são consideradas nativas. As demais são introduzidas (exóticas).

Essas espécies estão espalhadas por todos os estados brasileiros e em todos os biomas.

A Mata Atlântica, por exemplo, conta com 38 espécies nativas, o que a posiciona como o segundo bioma com mais espécies de Ficus, perdendo apenas para a Amazônia, que abriga 50 espécies.

Por outro lado, é na Mata Atlântica onde há a maior diversidade de figueiras endêmicas.

No Brasil existem 23 espécies de figueiras endêmicas, sendo 10 exclusivas da Mata Atlântica e apenas duas de ocorrência restrita na Amazônia.

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A Figueira e as pessoas

As figueiras são citadas em vários livros e relatos históricos, inclusive na Bíblia, como uma planta que influenciou diversas culturas e crenças.

Existem registros na região da Cisjordânia, no Oriente Médio, do cultivo de Ficus carica, o figo comum que compramos no mercado, datados de 5 mil anos atrás.

Isso indica que a figueira pode ter sido uma das primeiras árvores a serem domesticadas pelo Homem.

Já na cultura africana, a figueira passou a receber importância religiosa durante a escravidão nas Américas.

No continente africano existe uma espécie de árvore da família Moraceae, que é endêmica da África e representava uma divindade para povos da região.

Entretanto, durante a época da colonização europeia, quando vários africanos foram trazidos para o Brasil para serem vendidos como escravos, não havia por aqui essa espécie sagrada.

Portanto, os africanos escravizados passaram a divinizar outra figueira que ocorresse fora de sua terra natal. Como já comentamos, não faltavam espécies de figueiras na Mata Atlântica para “substituir” a árvore africana.

Devido a esse aspecto religioso, surgiu o mito de que cortar uma figueira poderia trazer mau agouro.

Então, durante a exploração das florestas brasileiras, sobretudo na Mata Atlântica, as figueiras eram preservadas e deixadas em pé.

Como a abertura de trilhas e supressão da vegetação era toda realizada por mão-de-obra escrava e o mito da divindade da figueira era de origem africana, possivelmente esse é o motivo que justificaria a preservação de grandes figueiras desde aquela época.

Dizem ser por conta disso que hoje encontramos tantas figueiras de porte monumental em algumas florestas da região da Mata Atlântica que já foram exploradas no passado.

Elas seriam remanescentes das florestas originais.

Nesse sentido, inclusive, Auguste de Saint-Hilaire, um dos naturalistas mais famosos e importantes que passaram pelo Brasil no século XIX, relata em seus documentos que figueiras eram frequentemente plantadas ao longo de cercas, divisas e caminhos, fornecendo sombra aos viajantes.

Ele comenta ainda que as figueiras eram plantadas por meio de estacas e que cresciam rapidamente nesses locais.

Portanto, a persistência de grandes figueiras nos remanescentes da Mata Atlântica, pode estar relacionada a três aspectos:

  • Preservação das figueiras por questões religiosas.
  • Devido ao seu rápido crescimento.
  • Combinação dos dois motivos anteriores.

Atualmente, além dos frutos, figueiras também são utilizadas no paisagismo urbano.

Esse é o caso da falsa-seringueira, cujo nome científico é Ficus elastica.

A falsa-seringueira é uma espécie originária da Ásia, que foi plantada em grande número nas ruas e praças da cidade de São Paulo.

São aquelas árvores de troncos enormes com raízes expostas para fora da terra, que podem ser observadas por exemplo nos canteiros da Avenida Santo Amaro e Avenida dos Bandeirantes em São Paulo.

Porém, essas árvores acabaram se tornando um grande incômodo, justamente por crescerem demasiadamente e por suas raízes invadirem encanamentos, destruírem calçadas, ruas e até muros.

É muito importante o conhecimento sobre as espécies, a fim de escolhermos adequadamente as espécies para a Arborização Urbana!

A árvore que inspirou o Buda

Uma das histórias mais interessantes sobre uma figueira que influenciou pessoas e o seu modo de vida, vem do Budismo.

Por volta do século V a. c., na Índia, existia um príncipe chamado Sidarta Gautama.

Sidarta vivia em meio ao luxo e segurança de seu Palácio, mas nunca saia dele e portanto não conhecia a realidade do mundo.

Certa vez, cansado daquela futilidade, o príncipe deixou o Palácio com a intensão de conhecer a Índia e seu povo.

Chegando lá, ficou espantado e desolado com a fome, doenças e sofrimento das pessoas. Quando perguntou a respeito para seu cocheiro, este lhe revelou que aquela era uma realidade comum.

Tocado profundamente pela triste realidade, o príncipe quis saber porque existia sofrimento no mundo.

Para obter a resposta, procurou pelos monges brâmanes e passou a conviver com eles em busca de sabedoria e iluminação, que poderia ser alcançada através de uma vida de privação de prazeres, jejum e meditação.

Porém, mesmo depois de anos seguindo esse caminho, Sidarta Gautama não encontrou a resposta que procurava.

Então, resolveu abandonar os monges e percorrer seu próprio caminho em busca de seu objetivo.

Exausto de sua longa busca, o príncipe se sentou sob a sombra de uma árvore para meditar, jurando que só sairia dali depois de encontrar as respostas que procurava.

Aquela árvore era uma frondosa figueira.

Passados 49 dias e 49 noites, o príncipe finalmente encontrou iluminação espiritual que tanto desejava e passou a ser chamado de Buda.

Buda é uma palavra derivada do sânscrito e significa “iluminado”, “aquele que sabe”.

Mais tarde, esse homem se tornou o fundador do Budismo, filosofia ou religião muito difundida no oriente.

Mas não foi só o príncipe que recebeu um nome importante.

Essa história foi tão marcante que mais tarde, essa figueira que cedeu sua sombra para a meditação do Buda, recebeu o nome de Ficus religiosa, como é conhecida pela botânica até hoje.

Essa é uma história comovente e demonstra a verdadeira interface que a Humanidade precisa desenvolver com o meio natural. Usá-la como fonte de INSPIRAÇÃO!

Folhas da figueira Ficus religiosa em primeiro plano e a sombra proporcionada por ela. Local: Parque Ibirapuera.

A Figueira e o ecossistema

As figueiras também são muito importantes para o ecossistema, participando de diversos processos e interações ecológicas.

Um exemplo disso é a interessante relação entre as figueiras e seus polinizadores.

As minúsculas flores das figueiras ficam protegidas dentro de uma estrutura que dará origem ao fruto, o sicônio.

Dessa maneira, as flores não ficam expostas no ambiente para serem polinizadas.

Essa morfologia especial permite que a polinização seja feita exclusivamente por algumas espécies de micro-vespas, que dependem do sicônio para completar seu ciclo de vida.

As micro-vespas entram no sicônio através de um pequeno poro chamado ostíolo, para então colocar seus ovos ali.

Quando as vespas saem da estrutura, ficam impregnadas com o pólen das flores e o levam para outra planta, promovendo a fertilização entre as figueiras.

Essa relação é tão específica que se as micro-vespas forem extintas, as figueiras terão o mesmo destino, pois não há outra forma de polinização no gênero Ficus.

Essa relação de co-evolução altamente especializada entre uma planta e seu polinizador é chamada na Ecologia de mutualismo.

As figueiras também possuem um papel ecológico muito importante nas matas como recurso alimentar para a fauna.

Seus frutos são altamente apreciados por diversas espécies de aves e mamíferos, que por sua vez dispersam suas sementes depois de consumidas.

Por outro lado, nem todas as relações entre figueiras e outros organismos são necessariamente harmônicas.

Há uma espécie, conhecida como figueira-mata-pau (Ficus enormis) que devido ao seu hábito oportunista, pode acabar provocando a morte de outras árvores.

Quando as sementes da figueira-mata-pau caem na bifurcação de uma árvore hospedeira, elas germinam e começam seu rápido crescimento.

Em pouco tempo, alcançam a dimensão da árvore hospedeira e se envolvem em seu caule com suas raízes, podendo acabar “sufocando” a planta e até matá-la.

Outro grande papel das figueiras para o ecossistema está na sucessão ecológica.

São plantas de crescimento rápido. Logo, funcionam como pioneiras ou secundárias iniciais no processo de sucessão florestal.

Dessa forma, fornecem sombra para as demais espécies de plantas que crescerão em seguida.

Por fim, as figueiras representam um grupo com elevada riqueza e amplamente distribuído ao redor do mundo. Possui, ainda, importância ecológica muito conhecida e é um elemento muito marcante na cultura de diversos povos. A partir de agora, ao olhar uma figueira, reflita sobre sua vida e busque a inspiração para seguir em frente e evoluir, SEMPRE!

figueira
Fim-fim, pássaro nativo do Brasil, se alimentando dos frutos de uma figueira-mata-pau (Ficus enormis).

Parte deste texto foi retirado de um relatório elaborado para um projeto de Educação Ambiental e Monitoramento Ambiental de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) no interior de São Paulo. O projeto está sendo desenvolvido pela Geonoma Florestal e o texto sobre a importância da Figura para a humanidade foi elaborado pelo Eng. Flor. Bruno Aranha.

Conheça o trabalho da Geonoma Florestal clicando aqui!

Caso você possua interesse em aprender a identificar as Figueiras e outras plantas nativas do Brasil, você precisa conhecer o Desafio 21 Dias de Identificação de Plantas promovido pela Brasil Bioma.

As inscrições para a 2ª turma se encontram abertas e você pode saber mais clicando aqui!

As inscrições para a 2ª turma encerram no dia 16/10.

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