Biomas brasileiros e o fogo: incêndios no Cerrado

Biomas brasileiros e o fogo: incêndios no Cerrado

Vegetação pegando fogo no cerrado

O fogo

Nos últimos meses temos acompanhado questões preocupantes que envolvem os Biomas brasileiros e o fogo, uma vez que incêndios podem comprometer a conservação do meio ambiente. O problema chama a atenção de todos principalmente na época do inverno, quando o índice pluviométrico diminui bastante em boa parte do Brasil.

Junto com essas notícias aparecem também muitas perguntas sobre o assunto:

  • Esses incêndios são naturais ou criminosos?
  • Incêndios são realmente comuns na estação seca?
  • Quanto eles danificam a vegetação e prejudicam os animais?
  • As florestas e Cerrados conseguem se recuperar depois?
  • A incidência de incêndios está aumentando nos últimos anos?

Neste texto, pretendemos responder essas perguntas.

Queimadas no Brasil ao longo dos anos

Primeiramente, é importante saber o histórico de incêndios em Biomas brasileiros.

No site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que entre outros serviços também monitoram as queimadas no País, é possível encontrar gráficos que mostram quanto o fogo têm danificado cada Bioma.

Olhando o gráfico de queimadas no Brasil ao longo dos anos, é possível observar que houveram picos de incêndios no País principalmente entre 2002 e 2005, com picos expressivos também em 2007 e 2010.

Ou seja, este não é um problema que começou agora.

Porém, quando separamos essas estimativas por Bioma, verificamos alguns recordes de áreas queimadas em 2020 (e olha que o ano ainda nem acabou).

Na Amazônia, por exemplo, este ano já foram perdidos mais de 62 mil km², número que supera os valores individuais dos últimos nove anos.

Mais preocupantes ainda, são as estimativas para o Pantanal, que perdeu em 2020 quase 33 mil km², quebrando o recorde dos últimos 18 anos.

Por outro lado, no Cerrado, as queimadas não estão aumentando.

Parte da vegetação do Cerrado é considerada inflamável, ou seja, adaptada evolutivamente para tolerar e se beneficiar do fogo.

Mas é claro, incêndios podem virar um problema até no Cerrado dependendo da situação, da frequência e intensidade dos mesmos.

Então, podemos afirmar que queimadas podem ser sim processos naturais em alguns Biomas (Cerrado), mas não em todos (Amazônia e Mata Atlântica, por exemplo).

Além disso, dependendo de como esse fogo se origina e se comporta ao longo dos meses do ano, o ambiente natural recebe benefícios ou prejuízos. O incêndio no início da estação seca (final da chuvosa) costuma ser muito menos intenso.

Ecologia do fogo e a biodiversidade

A Ecologia do fogo é um ramo da ecologia que investiga o comportamento do fogo em ambientes naturais.

Ele investiga a relação do fogo com a vegetação, animais e com os próprios recursos naturais presentes no ambiente.

O Cerrado é o maior Bioma brasileiro e também o melhor adaptado a lidar com o fogo.

Entretanto, o Cerrado é um Bioma diverso e entre os ambientes que ele abriga, estão:

  • Campos limpos;
  • Campos sujos;
  • Matas de galeria;
  • Cerradão;
  • Veredas.

Alguns desses ambientes, como as matas de galeria, são mais sensíveis ao fogo, ou seja, não se regeneram tão rápido e não precisam do fogo para renovar sua biodiversidade.

Por outro lado, ambientes como os campos não só se beneficiam com a passagem do fogo, como precisam dele para aumentar a diversidade de espécies que abrigam.

Vegetação do cerrado
Campo nativo do Cerrado no interior de Goiás.

Experimentos com fogo no Cerrado

Essa relação ecológica entre a vegetação do Cerrado e o fogo tem intrigado cientistas há muito tempo.

Uma das pesquisadoras, que estuda essas relações, é a Profª Dra. Alessandra Fidelis, da UNESP.

No Encontro Ambiental “O Fogo no cerrado e o Boi Bombeiro“, promovido pelo canal Brasil Bioma, ela contou um pouco sobre as pesquisas que desenvolve com a Ecologia do Fogo.

A Profa. Fidelis realiza experimentos em áreas de Cerrado no Estado de Goiás para entender como o fogo age sobre a vegetação nativa da região.

Para realizar um desses experimentos, ela e sua equipe montaram parcelas de 30 x 30 m em áreas naturais de campo, cercadas por aceiros.

Aceiros são brechas estreitas na vegetação, construídos ao redor de uma área para impedir a propagação de incêndios.

Essas parcelas eram queimadas de forma controlada pela própria equipe de pesquisa em diferentes épocas do ano:

  • Início da estação seca;
  • Meio da estação seca (julho);
  • Final da estação seca.

Alguns resultados muito interessantes foram evidenciados graças a esses trabalhos, ressaltando a importância do fogo para algumas espécies de plantas, além de levantar novas perguntas sobre esse assunto.

Experimentos com a vegetação do Cerrado

A profª Alessandra explica que o material combustível do fogo são principalmente capins mortos e plantas herbáceas, que vão se acumulando no ambiente ao longo do tempo.

Portanto, quanto maior o intervalo entre as queimadas em uma área, mais matéria orgânica é acumulada e maior será a intensidade dos incêndios.

Por outro lado, embora haja a tendência das queimadas do final da estação seca serem mais intensas, geralmente elas são seguidas pela estação chuvosa, que é capaz de apagar esses incêndios.

Ainda assim, Alessandra relata que o fogo passa extremamente rápido nas parcelas do experimento, consumindo cerca de 80% de todo material combustível em apenas 1 ou 2 minutos.

O fogo passa pela superfície tão rapidamente que não chega a alcançar as plantas mais altas nem o alto das árvores, que continuam com ramos vivos após o término do incêndio.

Além disso, o capim e as plantas herbáceas queimadas viram cinzas que são incorporadas ao solo e fertilizam as outras plantas.

Vegetação pegando fogo no cerrado
Experimento com fogo na vegetação do Cerrado (Foto: Alessandra Fidelis).

O Efeito do fogo nas plantas

Muitas dessas plantas possuem adaptações especiais à passagem do fogo, como cascas mais grossas para proteger o interior da planta.

Algumas também possuem caules e raízes subterrâneas enormes, que servem como reserva de energia e não queimam por estarem embaixo da terra.

Porém, o mais impressionante é que depois de aproximadamente um mês, arbustos e capins nativos já rebrotam nos campos, seja da base das plantas queimadas ou mesmo do subterrâneo.

Efeitos surpreendentes como a floração em massa de algumas dessas plantas só ocorrem após a passagem do fogo.

Um exemplo disso é o da catuaba ou alecrim-do-campo (Anemopaegma arvense).

Algumas semanas depois da queimada, essa planta já começa a gerar frutos e dispersa-los, mesmo no meio da seca, quando ainda não há água disponível no ambiente.

Porém, o processo mais interessante comentado pela pesquisadora, é o que ocorre com a cabelo-de-índio (Bulbostylis paradoxa), espécie de erva comum no Cerrado.

Durante estudos realizados na Reserva Natural Serra do Tombador, no norte de Goiás, foi observado que essa espécie é capaz de começar a desenvolver suas flores um dia após a passagem do fogo, quando ainda está toda carbonizada.

A cabelo-de-índio só emite suas flores para reproduzir após a passagem do fogo, e no mês seguinte já são capazes de começar a dispersão de suas sementes.

Essa relação entre o fogo e a vegetação do Cerrado nos mostra o nível de resiliência que algumas plantas do Cerrado possuem.

Porém esses processos só acontecem mediante incêndios contidos, em épocas e situações específicas, já que nem todas as espécies respondem ao fogo da mesma maneira.

Planta se recupera após queimada
Exemplar de cabelo-de-índio (Bulbostylis paradoxa) começando a florescer logo após a passagem do fogo no Cerrado (Foto: Alessandra Fidelis).

O fogo e os animais

Uma das principais preocupações que afligem pesquisadores, conservacionistas e técnicos em relação aos incêndios, é o que acontece com os animais:

  • Será que os animais conseguem fugir do fogo?
  • Muitos animais morrem no processo?
  • Existe alguma vantagem para animais como há para plantas?
  • Eles terão comida disponível após os incêndios?

Felizmente, em incêndios contidos, são raros os relatos de brigadistas sobre animais mortos vítimas do fogo.

Aparentemente, animais maiores como aves e mamíferos conseguem fugir, usando tocas para se abrigar ou recorrendo a aceiros como rotas de fuga.

A falta de recursos ambientais, como alimento por exemplo, também poderia ser um problema.

Incêndios de baixas proporções são portanto benéficos à biota como um todo do Cerrado.

Dessa forma, eles mantém muitas áreas intactas para onde esses animais podem rapidamente fugir para encontrar abrigo e comida.

Existem relatos inclusive, de pássaros e aves de rapina que se aproveitam dessas queimadas.

Esses animais acompanham os eventos esperando por insetos ou outros animais pequenos fugindo do fogo e aproveitam a situação para se banquetearem.

Além disso, se novas flores e frutos surgem após a passagem do fogo, provavelmente existem animais que se beneficiam disso também.

Portanto, conclui-se que pequenos incêndios naturais não causam grandes danos à fauna, e podem ser até benéficos para algumas espécies.

O maior problema está relacionado aos grandes incêndios descontrolados que varrem áreas inteiras de uma só vez e causam grande destruição.

Manejo do fogo no Cerrado

Recentemente houve uma grande mudança de paradigma quanto à ação e consequências do fogo no Cerrado brasileiro.

Atualmente, fiscais, técnicos e brigadistas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) conhecem melhor o fogo e como usá-lo para beneficiar as paisagens naturais.

Dessa forma, houve o desenvolvimento de estratégias de Manejo  Integrado do Fogo (MIF) para promover a manutenção da biodiversidade em Unidades de Conservação do Cerrado e até evitar grandes incêndios.

A Bióloga e Mestranda Carolina Barradas do ICMbio-TO, explica um pouco desse trabalho no já citado Encontro Ambiental promovido pelo canal Brasil Bioma sobre “O Fogo no cerrado e o Boi Bombeiro“.

O ICMBio, segundo palavras da própria Carolina, passou a “trabalhar com o fogo e não para o fogo”, uma vez que o manejo integrado permite manter um controle muito maior sobre as queimadas.

manejo de fogo
Equipe de pesquisa realizando o manejo do fogo (Foto: Alessandra Fidelis).

Benefícios do Manejo Integrado do Fogo

A queima prescrita é uma das estratégias de manejo usadas por eles.

Nesse método, escolhe-se o melhor momento pra iniciar incêndios locais de pequena proporção (janela de queima).

Cada espécie de planta do Cerrado tem interações diferentes com o fogo, portanto, de acordo com a época e intervalos em que ocorrem as queimas. Assim, plantas diferentes vão se beneficiar, promovendo uma maior biodiversidade.

Queimar anualmente ou a cada dois anos alguns locais de uma área preservada de Cerrado, promove a criação de mosaicos de habitats, que por sua vez abrigam um diversidade de espécies muito maior.

A equipe da Bióloga Carolina verificou que antes de começarem as ações de manejo controlado do fogo, o Cerrado também queimava, mas os incêndios ficavam descontrolados e passavam por áreas muito maiores e causavam destruição.

O problema é que habitats inflamáveis que ficam sem queimar por muito tempo, acumulam muito material combustível, criando incêndios prejudiciais.

Dessa forma, o Manejo Integrado do Fogo se revelou uma excelente forma não só de promover a biodiversidade do Cerrado, mas também para garantir sua conservação evitando incêndios destrutivos.

Como dizem os próprios manejadores do ICMBio, “o fogo pode ser um ótimo empregado, mas é um péssimo patrão”.

Origens do Fogo

Existem incêndios cuja ignição têm origem natural e incêndios provenientes de atividades antrópicas, ou seja, causados pelo Homem.

Ignições de fogo por meios naturais, incluem queda de raios na vegetação (origem natural mais comum no Brasil) ou outros fenômenos mais raros por aqui, como atividade vulcânica.

De qualquer forma, não é possível que um incêndio comece “do nada”.

Mas como saber se o fogo começou naturalmente ou foi de origem antrópica?

O Ibama e o ICMBbio possuem equipes de profissionais de perícia, treinados em cursos específicos, que são capazes de determinar não só as causas de uma ignição, como também o ponto onde um incêndio teve início.

Para determinar esses detalhes, os profissionais consideram e seguem a direção dos ventos e os rastros deixados pelo alastramento das chamas.

Porém, existem outras pistas importantes a se considerar.

Em áreas naturais como Unidades de Conservação, onde muitas vezes não há pessoas morando nas imediações, é muito difícil haver fogo de origem criminosa.

Por outro lado, em áreas próximas a paisagens modificadas pelo Homem, se há uma ignição em épocas de seca, onde não há formação de nuvens e raios, há maior chance do fogo começar com atividades humanas.

Inclusive, como já foi dito anteriormente, os incêndios naturais mais preocupantes ocorrem no final da estação seca, onde há maior acumulo de material combustível na vegetação.

Mas as tempestades com raios que provocam essas ignições, geralmente precedem as chuvas, que se encarregam de controlar o fogo pouco tempo depois.

Incêndio antrópico

É importante, por outro lado, destacar que nem todo fogo de origem antrópica é necessariamente danoso.

Comunidades tradicionais locais, usam e sabem manejar o fogo adequadamente nos terrenos onde vivem, para fazer a renovação de suas roças.

Algumas vezes essas pequenas queimadas podem ser clandestinas, já que muitas pessoas dessas comunidades não possuem autorizações especificas para esse uso, devido à falta de documentação de suas terras.

O uso clandestino é diferente do uso criminoso, iniciado propositalmente para devastar grandes áreas e “limpar” a vegetação nativa do local.

Incêndios criminosos se escondem em interesses escusos, egoístas e sem se preocupar com a conservação da biodiversidade.

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