Uma floresta em declínio: a conservação da biodiversidade em pequenos fragmentos

Tietê vegetação

Analise a foto abaixo e reflita: qual o estágio de regeneração desse trecho florestal observado em Tietê, interior de São Paulo? Qual o grau de conservação da biodiversidade neste fragmento?

floresta

Foto 1: Trecho de Floresta Estacional Semidecídua em Tietê, SP. Observa-se várias árvores adultas de grande porte, tais como Jequitibá (Cariniana estrellensis) e Guaritá (Astronium graveolens) morrendo ou em senescência e um desenvolvimento acima do normal de lianas hiperabundantes.

Proponho uma discussão interessante neste post e que está SUPER na “moda” entre os pesquisadores que atuam com Ecologia Florestal, Conservação da Biodiversidade e Restauração Ecológica:

Como garantir a conservação da biodiversidade em pequenos fragmentos?

Só para que você entenda a importância do tema, alguns números sobre a distribuição da Mata Atlântica, o domínio de vegetação mais ameaçado do Brasil (Ribeiro et al. 2009):

– Sobrou menos de 10% da cobertura original;

– 80% dos remanescentes possuem menos que 50 ha;

– 45% das áreas-núcleo (temperatura no sub-bosque do ponto central do fragmento estatisticamente inferior ao que se verifica alguns metros após a borda) estão a menos de 100 m da borda e 73% a menos de 250 m da borda;

– menos de 10% dos remanescentes está protegido em Unidades de Conservação.

Desses números, portanto, podemos afirmar que sobrou pouco do original e o que sobrou se encontra em fragmentos pequenos em que o efeito de borda é intenso!

Por conta disso, uma corrente muito grande na Ecologia começou a olhar para os fragmentos existentes sob a perspectiva da RESTAURAÇÃO sob o argumento de que não basta apenas tentar recuperar uma área degradada se o que sobrou está sofrendo uma ação deletéria contínua!

Esse é um dos PARADOXOS da Restauração Ecológica atual! Muitos estudos têm sido conduzidos para avaliar formas de manejo sustentável de florestas a fim de garantir a sua sustentabilidade no longo prazo!

A foto retratada acima deve ser entendida da seguinte forma: Trata-se de um remanescente com elevada relação perímetro/área, o que significa um expressivo efeito de borda (note como é o fragmento visto de cima na Foto 2 abaixo).

Tietê vegetação

Foto 2: Vista aérea do fragmento estudado em Tietê.

Nesse post, eu vou transmitir para você algumas ideias que compartilho apenas nos meus treinamentos presenciais e nos cursos ONLINE. Trata-se de algo que já é estudado no meio acadêmico, mas que não é transmitido a quem atua no mercado de trabalho da área ambiental e tem feito a diferença para aqueles que se tornam instrumentalizados com informações atuais sobre a diagnose de remanescentes em situações de extrema fragmentação.

A ideia do Disclímax! Você já ouviu falar sobre o tema?! Deixe um comentário abaixo para eu saber o que você está achando do post!

Analise o gráfico abaixo e reflita!

Condições florístico-estruturais tipificadas como “estágio sucessional” de um fragmento ao longo do tempo após eventos de degradação intensa

Figura 1: Condições florístico-estruturais tipificadas como “estágio sucessional” de um fragmento ao longo do tempo após eventos de degradação intensa.

Veja que a degradação intensa e contínua, na maioria das vezes, modifica a estrutura e composição de um remanescente de forma permanente. Com o tempo e ao perder as evidências de qual foi a degradação envolvida, o estágio sucessional poderá se modificar no longo prazo.

Na figura 1, está sendo usada a ideia de que a estrutura e a composição de espécies são dois dos principais elementos que caracterizam o estágio sucessional de uma Floresta (Ver mais em Resolução SMA/IBAMA 01/1994).

Em seguida, se os fatores de degradação se mantiverem presentes e houver o crescimento e proliferação de lianas hiperabundantes, a sucessão tomará um rumo distinto da esperada (H2 ou H3, na figura).

Sabemos hoje que a ideia de CLÍMAX ECOLÓGICO não se justifica por si, afinal de contas o ecossistema é um grande organismo em modificação constante, portanto não há uma situação de “estabilidade”. Portanto, a ideia atual foge daquela que F. E. Clements postulou em 1916.

Segundo ele, havia apenas um estágio clímax para onde todas as vegetações estavam se desenvolvendo, porém vagarosamente. Posteriormente, essa teoria ficou conhecida como Monoclímax e contrastou com a teoria do Policlímax postulada por H. A. Gleason em 1926.

Os autores, no entanto, não possuíam os dados que temos hoje para analisar os ecossistemas.

Após décadas e décadas de intervenção antrópica, desmatamento e fragmentação da paisagem, diferentes ciclos de devastação têm influenciado negativamente a condição de regeneração/resiliência dos remanescentes e, assim, a comunidade não possui condições por si só de continuar numa sucessão normal (H1), mas passa a se adequar a uma sucessão lenta (H2) ou até mesmo de disclímax (H3).

A diferença de H2 e H3 está na intensidade, frequência e duração da perturbação à qual a vegetação foi submetida.

Em H3, a antropização foi tão intensa, que o remanescente nunca mais irá apresentará uma composição de espécie e estrutura minimamente parecida com o que vislumbrava anteriormente!

A foto da floresta do início do post, se nada for feito em matéria de manejo e enriquecimento florestal, está num processo evidente rumo ao DISCLÍMAX! As árvores de grande porte secundárias tardias que compunham o dossel outrora de uma floresta em estágio avançado de regeneração, segundo a Resolução SMA/IBAMA 01/1994, estão morrendo devido ao elevado efeito de borda.

Com a morte dessas árvores, grandes clareiras são abertas em meio ao fragmento e a partir de então, uma competição evidente se instala entre as jovens de arbóreas e as trepadeiras.

Acontece que o clima é Tietê é sazonal. Há uma época em que o índice pluviométrico beira a zero por alguns meses (entre junho a agosto) e outros meses em que chove bem.

Na época seca, a maioria das árvores perdem suas folhagens e as trepadeiras, que possuem raízes mais profundas, dificilmente cessam o seu crescimento e vão preenchendo os espaços abertos pelas quedas de galhos e árvores.

Quando volta a chover, as árvores passam a ocupar um espaço cada vez menor. Assim, as trepadeiras vão paulatinamente “roubando” o espaço na floresta e ocupando nichos vazios. As trepadeiras, portanto representam a consequência de uma ação deletéria causada por todo o histórico de uso e ocupação do solo influenciado pelo homem.

Agora me diga: Você deve excluir toda essa interpretação histórica na hora de classificar uma floresta como essa, retratada em Tietê?!

Se você trabalha com Restauração Ecológica e Diagnóstico Ambiental para fins de licenciamento ou restauração da vegetação, você precisa acompanhar de perto o que tem sido discutido sobre Ecologia Florestal entre a comunidade científica.

E um dos propósitos deste blog e do Portal eFlora é contribuir com essa “aproximação”!

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Até a próxima!

Rodrigo Trassi Polisel (E-mail: [email protected])

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