Um limite da Mata Atlântica para chamar de seu

Botânica e meio ambiente

Aproveito o espaço semanal que me foi dado aqui no blog do Portal eFlora para divulgar um artigo que acabou de ser publicado na revista Oecologia Australis.

Um dos autores do artigo é o Dr. Thadeu Sobral-Souza, pós doutorando da UNESP Rio Claro e um grande estudioso das técnicas de modelagem e biogeografia aplicada à conservação da biodiversidade.

Ele ministrou a palestra com certificado “Revisitando o Passado: Biogeografia histórica da América do Sul e Hipóteses a cerca da Biodiversidade das Florestas Neotropicais” na área premium do Portal eFlora.

O artigo publicado analisa quatro propostas para definir os limites territoriais da Mata Atlântica.

A Figura abaixo, retirada do artigo, ilustra as quatro proposições.

Mapa mata atlantica

Figura 1: Quatro limites da Mata Atlântica segundo diferentes mapas amplamente utilizados e disponíveis online.

Em A, temos o limite proposto pela WWF no importante trabalho da caracterização das Ecorregiões mundiais (Olson et al. 2011).

Em B, temos a proposta da delimitação dos grandes biomas brasileiros de acordo com o IBGE e MMA que possuiu o intuito de orientar políticas públicas diferenciadas e o acompanhamento das ações em cada uma delas pela sociedade (IBGE 2016).

Em C, o limite da “Lei da Mata Atlântica”. Trata-se do limite comumente utilizado no licenciamento ambiental para o ordenamento do território.

Esta delimitação é a mais ampla que as demais e inclui as “zonas de tensão ecológica” da Mata Atlântica com outros biomas, além dos refúgios vegetacionais (Lei da Mata Atlântica nº 11.428/2006 e Silva et al. 2016).

Em D, a proposta de Ribeiro et al. (2009) que incluiu as áreas ecotonais entre Mata Atlântica e Cerrado do interior do Estado de São Paulo e do Norte do Paraná devido a uma elevada influência de espécies tipicamente da Mata Atlântica em fisionomias específicas do interior paulista entremeadas pelo Cerrado, como a Floresta Semidecídua.

Acesse o artigo e lá, você obterá o link que permitirá a você baixar os arquivos-fonte (p.e. Shapefile ou KMZ) dessas quatro classificações!

Outra grande sacada dos autores.

Recentemente, abordei o tema apresentando as 5 Áreas de Tensão Ecológica da Mata Atlântica que eu tive a oportunidade de conhecer através das expedições da minha série “Viajando com a Fitogeografia”.

Esta série acaba de se transformar no 1º volume de um Livro Multimídia pioneiro no mercado sobre o assunto e que tem sido muito bem recebido por profissionais da área ambiental!

Vale muito a pena você dar uma espiada nesse meu outro post, pois eu trago exemplos e, principalmente, fotos em regiões de muita complexidade vegetacional. Imagina o quão complicado é classificar a vegetação nessas áreas, não é?

Bem, mas voltando à análise do artigo divulgado aqui, temos um problema. Qual o LIMITE TERRITORIAL correto da Mata Atlântica?

Os autores foram muito felizes em definir dois limites:

– Limite CONSENSUAL (área aproximada: 1,08 mi km2): Refere-se à intersecção dos limites,

– Limite INTEGRADOR (área aproximada: 1,6 mi km2): Refere-se à união das quatro propostas.

A figura abaixo, retirada do artigo, ilustra ambos os limites!

limites mata atlantica

Figura 2: O limite integrador e consensual proposto pelos autores ao analisar as quatro propostas para definição dos limites da Mata Atlântica. Os marcadores em vermelho destacam as principais divergências. Os números 2,3 e 5 foram analisados pelo autor do post em outra publicação no Blog. Saiba mais aqui.

Você, agora, deve estar se perguntando…. Mas então, Rodrigo Polisel, qual é a proposta correta?! Qual eu devo aplicar no meu dia-a-dia de trabalho?!

No meu entendimento e como também afirmado pelos autores do artigo, o limite CONSENSUAL exclui importantes áreas da Mata Atlântica, como o litoral do Rio Grande do Sul, os encraves nordestinos e importantes áreas florestais no interior do Estado de SP, BA, MG e GO. Portanto, não deve ser usado!

Eu entendo que se estivermos em meio a alguma área dentro do limite CONSENSUAL, não teremos dúvidas em afirmar que estamos na Mata Atlântica. Agora, se estivermos atuando nas regiões limítrofes com o Cerrado ou com a Caatinga, estaremos nas zonas de tensão ecológica! Nessas áreas, a classificação é complexa e exige que o técnico possua especialização técnica em Identificação de Plantas.

Nas áreas de tensão, a escala de mapeamento ao qual foi utilizada no artigo não oferece condições para descrever fielmente a complexidade da vegetação. Assim, a checagem de campo, será fundamental para definir se a vegetação em questão é uma fisionomia da Mata Atlântica, um ecótono ou uma fisionomia do Cerrado/Caatinga.

Os autores, portanto, definiram de forma correta as regiões que exigem aprofundamento técnico para a correta classificação. Mas o fato é que, pela escala do mapeamento, nenhuma irá lhe assegurar fielmente o limite exato da Mata Atlântica! Portanto, NENHUMA É A MAIS CORRETA!

Para a definição fitogeográfica em campo é fundamental reconhecer as ESPÉCIES INDICADORAS!

No Estado de São Paulo, um manual da CBRN, proposto pelos pesquisadores do Instituto Florestal, auxilia muito aos profissionais que necessitam classificar vegetação na zona de contato entre a Mata Atlântica/Cerrado. A capa do manual segue abaixo. Nele, há uma lista com as espécies EXCLUSIVAS da Mata Atlântica, as EXCLUSIVAS do Cerrado e as GENERALISTAS, que ocorrem em ambos! É isso que precisa ser feito em outras áreas do Brasil.

Manual de Classificação das espécies na transição Cerrado e Mata Atlântica do Estado de São Paulo

Figura 3: Manual de Classificação das espécies na transição Cerrado e Mata Atlântica do Estado de São Paulo.

No meu curso ONLINE “O Segredo da Identificação de Plantas”, eu ofereço uma Chave de Identificação exclusiva e que para cada registro de saída da família, do gênero ou espécie, eu informo se o grupo ocorre na Mata Atlântica, no Cerrado, na Caatinga e por aí vai.

É a minha contribuição à classificação da vegetação em zonas de transição espalhadas pelo Brasil.

Ou seja, ao efetuar a identificação através de um material que permita reconhecer apenas com CARACTERES VEGETATIVOS, o profissional já saberá se a coleta é indicadora ou não.

O elemento florístico é FUNDAMENTAL para a definição fitogeográfica da área foco do seu trabalho ou de sua pesquisa.

Apenas classificar a estrutura da vegetação não será suficiente para você definir a natureza fitogeográfica da sua área foco, principalmente se ela estiver no limite “INTEGRADOR” como sugerido por Muylaert et al. (2018).

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Se você deseja apenas obter a minha CHAVE DE IDENTIFICAÇÃO COMPLETA, clique aqui.

Inclusive, essa chave de identificação pode ser acessada através de uma plataforma digital, via homepage convencional ou aplicativo Android.

Nota: Gostaria de finalizar esse post parabenizando os autores do artigo citado logo no início do post pela iniciativa em publicar esse trabalho em revista especializada e em português.

É muito importante que a comunidade científica aproxime seus artigos do grande público que possa se interessar pelo assunto e que, nesse caso, é propriamente a comunidade extra-acadêmica que atua no licenciamento ambiental.

Da maneira como foi desenhado, o artigo auxiliará muito os profissionais da área ambiental que atuam no mercado de trabalho.

Até a próxima!

Rodrigo Trassi Polisel (E-mail: [email protected])

 

Referências Bibliográficas

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2016. Mapa de biomas e de vegetação. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. (Acessado em 12 de janeiro de 2016, em http://mapas.ibge.gov.br/).

Muylaert, R. M., Vancine, M. H., Bernardo, R., Oshima, J. E. F., Sobral-Souza, T., Tonetti, V. R., Niebuhr, B. B., Ribeiro, M. C. 2018. Uma nota sobre os limites territoriais da Mata Atlântica. Oecologia Australis 22(3):302-311.

Olson, D. M., Dinerstein, E., Wikramanayake, E. D., Burgess, N. D., Powell, G. V. N., Underwood, E. C., D’amico, J. A., Itoua, I., Strand, H. E., Morrison, J. C., Loucks, C. J., Allnutt, T. F., Ricketts, T. H., Kura, Y., Lamoreux, J. F., Wettengel, W. W., Hedao, P., & Kassem, K. R. 2001. Terrestrial Ecoregions of the World: A New Map of Life on Earth. BioScience, 51(11), 933– 938. DOI: 10.1641/0006-3568(2001)051[0933:TE OTWA]2.0.CO.

Ribeiro, M. C., Metzger, J. P., Martensen, A. C., Ponzoni, F. J., & Hirota, M. M. 2009. The Brazilian Atlantic Forest: How much is left, and how is the remaining forest distributed? Implications for conservation. Biological Conservation, 142(6), 1141–1153. DOI: 10.1016/ j.biocon.2009.02.021.

Silva, A. P. M., Marques, H. R., & Sambuichi, R. H. R. 2016. Mudanças no código florestal brasileiro: desafios para a implementação da nova lei. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Ipea/IPC-IG: p. 359.

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