Taxonomia de plantas superiores marinhas

Taxonomia de plantas superiores marinhas

Kcrishna Barros

No texto anterior, vimos que as angiospermas marinhas são plantas superiores. Morfofisiologicamente adaptadas aos ambientes submerso e salino, elas se originaram de plantas superiores terrestres que se adaptaram lentamente ao ambiente aquático e marinho, devido ao aumento e diminuição do nível do mar.

Dentre o total de 300.000 espécies de angiospermas conhecidas, 130 espécies são aquáticas (ordem Alismatales), sendo que apenas 60 espécies vivem em ambiente marinho e estuarino. As espécies marinhas são distribuídas em 12 gêneros, o que corresponde a apenas 0,02% do total de espécies de angiospermas já identificadas no mundo.

Incluindo as espécies eurihalinas (adaptadas a variações de salinidade, mas que podem viver em água doce), são descritas 76 espécies, pertencentes a 15 gêneros. Dentre as 14 famílias que pertencem à ordem Alismatales, sete famílias detêm as espécies que vivem em ambientes marinhos e salinos:

Reino Plantae

Filo Tracheophyta

Superclasse Angiospermae

Classe Monocots

Subclasse Alismatanae

Superordem Alismatiflorae (Helobiae)

Ordem Alismatales

Família Cymodoceaceae

Família Hydrocharitaceae

Família Posidoniaceae

Família Potamogetonaceae

Família Ruppiaceae

Família Zannichelliaceae

Família Zosteraceae

As famílias Cymodoceaceae, Posidoniaceae e Zosteraceae abrangem espécies exclusivamente marinhas. Da família Hydrocharitaceae, apenas 3 gêneros são marinhos. Alguns estudos genéticos, inclusive, apontam que a origem das plantas marinhas ocorreu a partir desta família. As famílias Potamogetonaceae, Ruppiaceae e Zannichelliaceae englobam espécies eurihalinas. Contudo, a inclusão destas espécies no grupo ecológico das angiospermas marinhas vem sendo discutida há várias décadas, por não estarem completamente adaptadas ao ambiente marinho, não podendo, portanto, competir com organismos destes ambientes.

As angiospermas marinhas possuem menos características visíveis para a identificação em comparação com as terrestres. Contudo, devido ao tamanho reduzido de algumas espécies, às vezes é necessário o uso de microscópios para a observação das bordas e ápices foliares, bem como nervuras e flores. Diversas técnicas também têm sido empregadas, mas vários pesquisadores são enfáticos ao indicar o uso de técnicas genéticas para diferenciar as espécies e principalmente definir caracteres morfológicos confiáveis para identificação, já que alguns caracteres morfológicos podem variar de acordo com o ambiente.

Dentre as 11 espécies que ocorrem na região tropical do Oceano Atlântico, seis espécies são encontradas no Brasil: Halodule beaudettei Hartog, Halodule emarginata Hartog, Halodule wrightii (família Cymodoceaceae), Halophila baillonis Ascherson, Halophila decipiens Ostenfeld (família Hydrocharitaceae) e Ruppia maritima Lipkin (Ruppiaceae).

Confira as principais características destas espécies:

  • Halodule beaudettei (Fig. 1A) foi recentemente registrada na costa brasileira, ocorrendo entre os litorais do Piauí e Ceará, especialmente em áreas estuarinas, junto a manchas de wrightii e H. decipiens. A folha é escura, com a lâmina mais larga das espécies do gênero que ocorrem no Brasil e o ápice da folha possui dois dentes laterais diminutos e dente central mais largo e arredondado, que mede entre 1 e 10 vezes maior que os dentes laterais;
  • Halodule emarginata (Fig. 1B) é endêmica do Brasil, cujos estudos genéticos são recomendados, já que é considerada por alguns autores apenas uma variação morfológica de Halodule wrightii. A espécie tem folhas lanceoladas e é diferenciada especialmente pelo ápice, em geral, serrilhado. Geralmente, as folhas são mais escuras e mais largas que as folhas de wrightii oriundas de áreas próximas;
  • H. wrightii (Fig. 1C, 1D) é a espécie mais abundante e bem estudada, cujos prados mais exuberantes ocorrem na Região Nordeste do Brasil, notadamente no entorno dos litorais piauiense e alagoano. Possui ápices tridenteados ou bidenteados e apresenta a lâmina mais fina, dentre as espécies do gênero que ocorrem no Brasil;
  • Halophila baillonis (Fig. 1F) até pouco tempo vinha sendo considerada extinta no litoral brasileiro, porém estudos recentes registraram sua ocorrência em áreas estuarinas do Nordeste brasileiro. Possui 4 folhas arredondas que saem do mesmo eixo;
  • Halophila decipiens (Fig. 1G) é uma espécie sensível que tem sido amplamente encontrada em áreas estuarinas, geralmente ocorrendo em áreas onde também ocorre a espécie wrightii. Apresenta 2 folhas arredondadas que saem do mesmo eixo;
  • Ruppia maritima (Fig. 1E), a única espécie estuarina, possui a distribuição mais ampla da costa brasileira, ocorrendo desde o Maranhão ao Rio Grande do Sul, em estuários, lagoas e lagunas costeiras. As folhas vão afilando até o ápice, que é agudo.

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Figura 1. Espécies de angiospermas marinhas que ocorrem ao longo da costa do Brasil. A – Halodule beaudettei; B – Halodule emarginata; C – Halodule wrightii; D – Pradaria imersa de H. wrightii em Cajueiro da Praia, Piauí; E – Pradaria submersa de Ruppia maritima na Lagoa dos Patos, Rio Grande do Sul; F – Halophila baillonis ocorrendo junto a H. wrightii em Cajueiro da Praia, Piauí; G – Pradaria submersa de Halophila decipiens. Imagens: Kcrishna Barros (A, B, C, D, F, G); Marianna Lanari (E).

**Esta coluna é de responsabilidade de Kcrishna Barros ([email protected])

Referências

Barros, K.V.S.; Rocha-Barreira, C.A.; Magalhães, K.M. Seagrass meadows on the northeast coast of Brazil: habitat influence on the spatial and seasonal variations. In: SNYDER, M. (Ed.). Aquatic Ecosystems: Influences, Interactions and Impact on the Environment. New Jersey: Nova Science Publishers, 2016. p. 1-

Copertino, M. S.; Lannari, M. O.; Creed, J. C.; Magalhães, K. M.; Barros, K. V. S.; Sordo, L.; Lana, P. C.; Rezende, P. A.; Horta, P. A. The Brazilian Seagrass and Submerged Aquatic Vegetation Habitats: the state of knowledge, conservation status and main threatens. Brazilian Journal of Oceanography, v. 64, p. 53-80, 2016.

Den Hartog, D.; Kuo, J. Taxonomy and biogeography of seagrasses. In: Larkum, A.W.D.; Orth, R.J.; Duarte, C. (Eds.) Seagrasses: Biology, ecology and conservation. Dorbrecht: Springer, 2006. p. 1-22.

Kuo, J.; Den Hartog, D. Seagrass Taxonomy and Identification Key. In: Short, F.T.; Coles, R.G. (Eds.) Global Seagrass Research Methods. Amsterdam: Elsevier Science D.V., 2001. p. 31-58.

Guiry, M.D. & Guiry, G.M. 2016. AlgaeBase. World-wide electronic publication, National University of Ireland, Galway. Disponível em: http://www.algaebase.org; Acesso em: 10 de dezembro de 2016.

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