As plantas superiores marinhas

Plantas marinhas mundo

Quem são as representantes das plantas superiores marinhas adaptadas aos ambientes salinos?

Existem alguns grupos de plantas superiores associados a ambientes marinhos e salinos como a vegetação de dunas, marismas (saltmarshes), manguezais e as angiospermas marinhas. No entanto, somente estas últimas são consideradas completamente marinhas, já que apresentam adaptações morfofisiológicas ao ambiente submerso e salino.

As angiospermas marinhas são as únicas plantas vasculares de pequeno porte que ocorrem em sistemas costeiros de todos os continentes, à exceção do antártico, formando verdadeiras pradarias nas áreas rasas costeiras (Figura 1).

Alguns espécimes são considerados os organismos vivos mais antigos do mundo, como apontado num artigo publicado na Revista PLOSOne (Arnaud-Haond et al., 2012; Figura 2).

Como legítimas angiospermas, também apresentam flores e frutos (Figura 3).

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Figura 1. Pradaria de Halodule wrightii em Cajueiro da Praia, Piauí, Nordeste do Brasil, mostrando a megafauna associada durante a maré baixa. Imagem: Kcrishna Barros®

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Figura 2. Matéria do site da BBC do Reino Unido noticiando a pesquisa que apontou a idade (dezenas de milhares de anos) de uma espécie de angiosperma marinha do Mar Mediterrâneo. Retirada de: http://www.bbc.co.uk/nature/16811538.

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Figura 3. Haste de uma angiosperma marinha com flores masculinas (A); flor feminina (B) e frutos recém-removidos de hastes de Halodule wrightii (B). Imagens: Kcrishna Barros®

São conhecidas por diversos nomes, dependendo da região onde são encontradas ou das características morfológicas da espécie.

De um modo geral, este grupo de plantas é conhecido como gramas marinhas, do inglês Seagrasses.

Este nome foi dado por pescadores, caçadores e agricultores de comunidades costeiras de vários países da Europa, em virtude da semelhança morfológica destas plantas com as gramas terrestres, embora não pertençam à família Poaceae.

Na verdade, as angiospermas marinhas formam um grupo ecológico e não um grupo taxonômico, mas este é um assunto para os próximos capítulos. Outros nomes que estas plantas recebem são: pastos marinhos, pradarias marinhas, ervas marinhas, plantas marinhas floridas (marine flowering plants), plantas superiores marinhas, alismatídeas (alismatids), fanerógamas marinhas e angiospermas marinhas (magnoliófitas marinhas).

Devido a publicações mais antigas sobre plantas superiores marinhas no Brasil, elas ainda são frequentemente referidas como ‘fanerógamas marinhas’.

Entretanto, as fanerógamas também englobam o grupo das gimnospermas, e estas não apresentam representantes marinhos.

Publicações internacionais mais específicas, inclusive, referem-se a estas plantas como “marine angiosperms”.

Assim, os atuais especialistas brasileiros têm tentado suprimir o termo “fanerógamas” para designá-las.

Como surgiram as plantas superiores marinhas?

Até que ocupassem o ambiente marinho, as plantas passaram por uma série de aquisições e perdas de características.

A evolução das angiospermas marinhas, portanto, se confunde com a evolução vegetal, apenas tornando-se um “ramo” diferente das demais plantas superiores dentro da escala evolutiva.

A ocupação do território marinho, assim como do ambiente terrestre, pelas plantas está diretamente associada às variações no nível do mar.

Baseando-se em registros fósseis e localização de algumas espécies, separadas por barreiras geológicas (como a da América Central), chegou-se à conclusão de que as plantas teriam chegado ao ambiente marinho entre 100 e 65 milhões de anos atrás.

Devido aos períodos de seca e avanços no nível do mar, as espécies foram se adaptando ao ambiente aquático e muito mais tarde ao ambiente salino.

Sua evolução, portanto, foi provavelmente uma lenta adaptação ao aumento na concentração de sal, acompanhada pela migração da água doce através do estuário e oceano.

Com base em estudos filogenéticos, as angiospermas marinhas teriam se originado de três linhagens diferentes, sendo duas linhagens de plantas hidrófitas de água doce e uma linhagem de marismas. Atualmente, são conhecidas cerca de 60 espécies de angiospermas marinhas.

No entanto, diversos estudos genéticos ainda estão sendo desenvolvidos para confirmá-las, já que os principais critérios de identificação são baseados em caracteres morfológicos, que podem variar de acordo com o ambiente.

Adaptações das plantas superiores ao ambiente marinho

Como dito anteriormente, as angiospermas marinhas são plantas adaptadas ao ambiente marinho, apresentando:

  • Capacidade de realizar polinização hidrófila, embora também possam se reproduzir assexuadamente através de fragmentação ou crescimento de clones;
  • Mecanismos morfofisiológicos para absorção de água em ambiente salino e para sobreviver em ambientes com alta variação de salinidade;
  • Habilidade para crescerem completamente submersas e para competir com outras espécies marinhas;
  • Sistema de ancoragem seguro para resistirem ao hidrodinamismo, com a presença do rizoma e um sistema de raízes em cabeleira que fixam a planta no sedimento;
  • Presença de tecidos flutuadores (aerênquima) que possibilitam maior maleabilidade e resistência ao movimento da água. A presença do aerênquima associada à quantidade reduzida de lignina, proteína que confere rigidez aos vegetais terrestres, são importantes características que as diferenciam dos vegetais terrestres.

Além destas características, as angiospermas marinhas carregam consigo algumas aquisições das suas ancestrais terrestres.

Estas foram essenciais para a sobrevivência, conquista de território e aumento do porte das plantas em ambiente terrestre, como a presença de partes especializadas para a proteção da semente, a alimentação do embrião pela própria semente, a presença de flores e frutos, e o desenvolvimento de um sistema elaborado de tecidos para a condução das seivas bruta e elaborada que garantem a distribuição de alimento e água por todas as partes da planta.

 

**Esta coluna é de responsabilidade de Kcrishna Barros ([email protected]).

 

Bibliografia

ARNAUD-HAOND, S.; DUARTE, C.M.; DIAS-ALMEIDA, E.; MARBÀ, N.; SINTES, T.; SERRÃO, E.A. 2012. Implications of Extreme Life Span in Clonal Organisms: Millenary Clones in Meadows of the Threatened Seagrass Posidonia oceanica. PLOSOne 7(2): 1-10.

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Gabriel Lima é graduado em Ciências Biológicas, e assistente de redação no eFlora Web. Considera-se um admirador das plantas e amante da Botânica.