Pelas estradas do Brasil: Uma expedição fitogeográfica do Sudeste ao Nordeste do país

Pelas estradas do Brasil: Uma expedição fitogeográfica do Sudeste ao Nordeste do país

A expedição e seus objetivos

Ao longo de 13 dias do mês de junho de 2017 (10 a 22), acompanhado de minha fiel escudeira, minha esposa Marina Kizys Polisel, efetuamos uma jornada desafiadora pelas estradas brasileiras. Saímos de São Paulo capital, onde moramos e trabalhamos, e nos deslocamos até Teresina (PI) com destino final até Parnaíba, no litoral do mesmo Estado.

O percurso de ida (Figura 1A) e volta (Figura 1B) está representado no roteiro abaixo, elaborado simplificadamente através do Google Maps.

Figura01ViFigura 1 – Percurso de ida (A) e volta (B) ao longo de mais uma viagem da série “Viajando com a Fitogeografia” do portal eFlora.

Chegando em São Paulo, o hodômetro do carro cravou 6.750 km percorridos. A título de comparação, a distância entre São Paulo (Brasil) e Lisboa (Portugal) em linha reta é de 7.957 km, ou seja, “apenas” mais 1.200 km. É, sem dúvida, um deslocamento bem expressivo!

O resultado da expedição foi muito satisfatório. Gravamos quase 190 tomadas de vídeo totalizando 52,4 GB de vídeos e fotos ao longo do traçado e coletamos mais de 120 amostras vegetais que servirão de exsicatas a serem incorporadas em herbários, efetuadas em zonas pouco coletadas pelos pesquisadores ou que servirão para aumentar a base de dados digital dos nossos treinamentos exclusivos e com certificado.

De forma prática, os objetivos da expedição foram:

1) Gravar mais dois trechos da série “Viajando com a Fitogeografia” a serem incorporados em julho no portal eFlora (São Paulo-SP a Teresina-PI via Rio-Bahia e Teresina-PI a São Paulo-SP via Brasília).

Esta série, para quem não conhece, representa uma descrição da vegetação ao longo de um traçado linear de deslocamento rodoviário, mediante a tomadas de vídeo (Foto 1) e descrições em texto com citação de bibliografia e dados secundários.

Figura02ViFoto 1 – Alguns dos equipamentos usados na gravação dos vídeos ao longo da expedição São Paulo (SP) / Teresina (PI) realizada em junho no âmbito do portal eFlora.

No portal eFlora, já temos um traçado linear analisado minuciosamente. Trata-se do eixo São Paulo (SP) a Gramado (RS) via Chapecó (SC). Em breve, entrará o eixo Gramado (RS) a São Paulo (SP) via BR 101 (litoral) e o trecho da presente expedição.

Quando estes trechos estiverem na plataforma, lançarei o meu próximo Livro Digital apresentando a todos(as) que desejam viajar comigo pelas Estradas do Brasil sem sair de casa e aprendendo MUITOOOO. Uma obra bem diferente das que temos sobre Fitogeografia disponíveis.

2) Coletar ramos adultos de espécies arbóreas ao longo do domínio da Caatinga e Cerrado para atualização da Chave de Identificação das Famílias e Gêneros de Plantas Arbóreas das fitofisionomias abertas e fechadas do Brasil, disponível ao aluno do nosso curso “O Segredo da Identificação de Plantas.

Desde 2008, eu executo cursos de extensão em Botânica para profissionais e estudantes de áreas ambientais que desejam identificar as plantas. Na época, eu pude sentir na pele a falta de bibliografias práticas e didáticas que nos fizessem entender e buscar melhor as plantas nos Manuais de Identificação disponíveis no Mercado e não fazer dessa atividade um verdadeiro “caça às bruxas”. Foi aí, que eu elaborei uma Chave de Identificação, que inicialmente servia apenas para a região onde eu estava coletando em Juquitiba (60 km de São Paulo) com o apoio de meus orientadores de IC (Ms. Geraldo Franco e Dra. Natália Ivanauskas).

Com o sucesso dos cursos e o convite para ministra-lo em outras regiões, eu fui atualizando a Chave de identificação, incorporando gêneros e famílias de plantas que não ocorriam apenas na Mata Atlântica do Estado de São Paulo, mas em outros domínios de vegetação também através de um amplo estudo em herbários aqui de São Paulo (Saiba mais nessa vídeo aula que postei sobre o assunto no meu Canal do YouTube).

No entanto, nunca tive a oportunidade e recursos para viajar pelo Brasil com o propósito específico de coletar plantas a fim de testar a chave em regiões bem afastadas do Estado de São Paulo. Com essa expedição, a oportunidade e maturidade finalmente chegou para avançar nesse sentido!

Essa nova versão da chave vegetativa estará disponível na versão 2.0 do Curso “O Segredo da Identificação de Plantas” em que novos conteúdos e vídeo-aulas entrarão e quem já tiver o acesso do curso levará toda essa atualização de graça e sem o custo do reajuste do curso. Portanto, se você tem interesse por esse nosso conteúdo exclusivo sobre Taxonomia de Campo, você pode adquiri-lo ainda através do nosso site!

Figura03VIFoto 2 – Prensas com as coletas realizadas ao longo da expedição.

3) Gravar vídeo-aulas para o curso “O Segredo da Identificação de Plantas”.

As próximas atualizações do curso, às quais os alunos terão acesso automático, terão o objetivo de apresentar e “aproximar” a vegetação dos diferentes domínios de vegetação do Brasil àqueles que não têm condições de conhecer in loco.

Na versão 2.0 que estamos editando, por exemplo, haverá vídeo-aulas gravadas por mim em três regiões distintas do Sul e Sudeste do Brasil, em Mata Atlântica e Cerrado. Assim, o aluno que trabalha na região das coletas irá tirar muito mais proveito e aquele que está longe do local, aprenderá muito sobre a vegetação de um dado local, além de compreender o potencial incrível dessa Chave de Identificação no reconhecimento de plantas em praticamente todo o Brasil!

4) Gravar vídeo-aulas para o meu canal Brasil Bioma do Youtube (Se você ainda não está inscrito(a), faça sua inscrição gratuita através deste link. Basta um clique!).

Muitos de meus seguidores nas redes sociais têm me instigado a fazer vídeos mostrando outras paisagens, aspectos e processos, que não seja aqueles que ocorrem aqui no nosso reduto, a Mata Atlântica do Estado de São Paulo. Então, eu aproveitei essa expedição para fazer VÁRIOOOOOS vídeos que eu pretendo postar regularmente lá no meu canal. Todos gratuitos e que passam uma mensagem curta e prática! Inscreva-se e acompanhe os próximos vídeos.

Em breve, mais Cerrado e Caatinga lá no meu espaço do YouTube!

5) Produzir conteúdo ao meu blog eFloraWeb.

Assim como este post, outros virão para trazer fotos, informações e experiências únicas que eu adquiri ao longo de todo este deslocamento. Vale a pena você acompanhar o meu trabalho na rede. Eu divulgo todos os posts novos do eFloraWEB através de minha fanpage no Facebook. Ao lado, você pode aproveitar e curtir para receber em sua timeline essas informações bacanas que compartilhamos nessa plataforma aberta de comunicação em Meio Ambiente.

No presente post, eu apresento o primeiro trecho do que encontrei ao longo do caminho na viagem de ida para Teresina, PI. Hoje, descrevo o que vi de forma sucinta entre São Paulo (SP) a Petrolina (PE). No próximo post, continuarei o trajeto até Teresina (PI).

Por que se deslocar tanto?!

O bom profissional é aquele que não para de observar. O que você faz quando está viajando? Eu te convido a começar a olhar para o lado e tentar compreender a mudança da vegetação.

Logo no início, no meu estágio de Iniciação Científica lá no Instituto Florestal de São Paulo, eu usava os deslocamentos para discutir e aprender muito com os pesquisadores que tive a oportunidade de acompanhar. A partir dessas conversas, eu fui atrás de bibliografias e li uma obra fundamental a quem deseja trabalhar com classificação de vegetação e fitogeografia no Brasil.

Trata-se do Tratado de Fitogeografia do Brasil, obra de Carlos Toledo Rizzini, publicada em 1997. Eu li quando estava na graduação e confesso que não conhecia nem 10% das espécies indicadoras de cada um dos domínios de vegetação descritas por Rizzini. Após essa viagem, consegui observar in loco boa parte delas o que me leva a revisitar essa obra para sedimentar todos os conhecimentos que ficaram no ar na primeira leitura.

Após me formar, eu tive a oportunidade também de trabalhar em Estudos Ambientais de obras lineares, que necessitam a visita de vários remanescentes de vegetação ao longo de centenas de km. Esse tipo de campo é excelente para compreender como se dá a distribuição das espécies e das fitofisionomias.

Abaixo, eu trago o mapa de “biomas” do Brasil segundo o IBGE (Figura 2). O que você acha da distribuição dos biomas apresentado abaixo? Como se dá a transição entre eles? O que determina cada um deles?

Figura04Vi                                                  Figura 2 – Mapa de Biomas do IBGE.

Asseguro-te que essas respostas só começarão a aparecer e, principalmente, farão sentido se você se deslocar por meio deles, descrevendo as áreas core (centrais), analisando as áreas de transição e coletando as espécies que aparecem ao longo do percurso.

Por isso, a todo momento em minha expedição, eu consultava o Mapa de Classificação da Vegetação Brasileira adaptada a um sistema universal, publicado pelo IBGE em 2012 (Figura 3). Vemos que para cada bioma, há uma série de formações de vegetação. Observe a quantidade de legendas! Complicado, né?! Vamos com calma!

mapaFigura 3 – Vegetação do Brasil segundo IBGE (2012).

O deslocamento em traçados lineares é peça chave para conhecer mais a flora de uma região. Eu posso afirmar isso a você, pois senti na pele tudo isso que estou relatando. Em abril/2017, eu fui contratado para realizar um Inventário Florestal no município de Guadalupe, no Sudoeste do Piauí. Para ter uma ideia, no percurso de Teresina à Guadalupe, eu imaginava que visualizaria uma linda Caatinga, mas só pude constatar Cerrado.

Olhava algumas espécies que ocorriam nesse Cerrado no percurso, mas não conseguia fazer nenhum elo com a Caatinga “ao lado” e pouca coisa fazia sentido. Foi só depois de atravessar a Caatinga nessa expedição entre Juazeiro/BA a Picos/PI que ficou claro para mim que a presença de Combretum spp. (caatinga-branca, mufumba e caatinga-de-porco) e Mimosa spp. (jurema-preta e jurema-branca) no Cerrado que eu estudei lá em Guadalupe é uma característica dos Cerrados da região florística Norte que sofre a influência da Caatinga. O fato é que essas espécies pouco são vistas nos Cerrados aqui de São Paulo e Minas Gerais.

Bem vindo(a) ao maravilhoso mundo da Fitogeografia!

Nas próximas seções, eu apresento a vegetação de forma bem sucinta dos diferentes trechos que atravessei no meu percurso de ida. A descrição completa do percurso estará disponível na área de assinantes do portal eFlora.

O famigerado Vale do Rio Paraíba

A Foto 3 e 4 abaixo mostra o padrão geral que encontramos entre o trecho de São José dos Campos (SP) a Leopoldina (MG), quando através da Rio-Bahia (BR 116), houve o início da transição para a Bacia do Rio Doce. Infelizmente, a maioria dos morros e morrotes ao longo do vale se encontra desprovida de vegetação e a maior cobertura florestal se dá na Serra do Mar e da Mantiqueira, localizadas no entorno.

O famigerado Vale do Rio Paraíba

A Foto 3 e 4 abaixo mostra o padrão geral que encontramos entre o trecho de São José dos Campos (SP) a Leopoldina (MG), quando através da Rio-Bahia (BR 116), houve o início da transição para a Bacia do Rio Doce. Infelizmente, a maioria dos morros e morrotes ao longo do vale se encontra desprovida de vegetação e a maior cobertura florestal se dá na Serra do Mar e da Mantiqueira, localizadas no entorno.

foto3Foto 3 – Região de Cruzeiro (SP) próximo da divisa São Paulo/Rio de Janeiro no Vale do Paraíba com a Serra da Mantiqueira ao fundo.

foto4Foto 4 – A paisagem antropizada da região do Vale do Paraíba em Queluz, SP. Divisa São Paulo/Rio de Janeiro.

O Vale do Paraíba é uma região em que podemos constatar mudanças climatológicas muito intensas em distâncias geográficas curtas, devido à existência de duas Serras muito importantes na região: a Serra do Mar e a da Mantinqueira (Figura 4). Estas Serras influenciam a pluviosidade ao longo do vale no eixo a favor da continentalidade (perpendicular à linha do Oceano Atlântico. Trata-se do efeito das chuvas orográficas a barlavento e a “sombra de chuva” a sotavento. Notem a diferença de pluviosidade (em mm) na região da Serra do Mar (até 4.500 mm/ano), no Vale do Paraíba (1.200 mm/ano) e na Serra da Mantiqueira (2.000 mm/ano).

figura4Figura 4 – Perfil esquemático do Vale do Paraíba na região de Caraguatatuba (SP) a leste e Campos do Jordão (SP) a oeste.

Consegui perceber diferenças florísticas interessantes entre os remanescentes de vegetação no trecho de SP/RJ do Vale do Paraíba em detrimento do trecho entre a divisa RJ/MG (em Além Paraíba) com o município de Leopoldina em MG. É possível observar que a presença de árvores caducifólias aumentam, devido a presença maciça de espécies da família Fabaceae (Foto 5). Apresentaremos a lista dessas espécies no post completo que está sendo trabalhado para o portal eFlora

figura 5Foto 5 – A fisionomia de Floresta Estacional Semidecídua próximo à Além Paraíba, divisa do Rio de Janeiro e Minas Gerais através da BR-116 (Rio Bahia).

O resiliente Rio Doce

Em Governador Valadares, pudemos ter uma visada muito interessante de um dos mais importantes rios do Brasil: o Rio Doce (Foto 6). Conversando com pessoas que trabalham e residem próximo ao rio tivemos uma leve ideia da enorme tragédia que a região sofreu com o rompimento das barragens da Samarco em Mariana (MG) no ano passado. Segundo eles, a comunidade de ictiofauna nunca mais foi a mesma, e segundo estudos, possivelmente nunca mais será. Uma tristeza muito grande!

rio doce Foto 6 – O Rio Doce em Governador Valadares, MG.

Em relação à vegetação, ainda estamos no domínio Mata Atlântica e na formação de Floresta Estacional Semidecídua, mas as espécies presentes na beira do rio não são as mesmas que víamos na bacia do Paraíba do Sul. Um exemplo é Platymiscium pubescens (sacambú), uma espécie que ocorre em MG, BA, ES e RJ. Um elemento que ocorre na Caatinga e na Floresta Estacional da Bacia do Rio Doce.

Inclusive, há estudos que demonstram uma nítida distinção entre a flora da Mata Atlântica ao Sul e ao Norte da Bacia do Rio Doce. Deixarei para depois a discussão sobre os aspectos florísticos. No que tange à estrutura, as diferenças foram marcantes e foi elucidativo ao longo do percurso!

Entre Gov. Valadares e Teófilo Otoni, por exemplo, em região Serrana, uma floresta Semidecídua em transição apresentou uma espécie de Arecaceae comum nas Florestas de Tabuleiro do Espiríto Santo. Trata-se de Attalea burretiana (pindoba-graúda) (Foto 7).

Em Teófilo Otoni, na altitude de 250 m.s.m., nas áreas antropizadas (pastos), começamos a observar umas árvores bem baixinhas com o aspecto de moita. Vejam na Foto 8 um exemplo disso. Essas “moitinhas” eram de espécies da Família Fabaceae-Mimosoideae. Só conseguimos compreender o que representavam quando cruzamos a Bacia do Jequitinhonha pela Rio Bahia (Foto 9).foto7Foto 7 – As Florestas Semidecíduas na Serra do divisor da Bacia do Rio Doce e do Jequitinhonha à norte de Teófilo Otoni, Norte de MG.

foto8Foto 8 – O campo antrópico na região de Teófilo Otoni, MG. O aparecimento de árvores baixas de Fabaceae é um elemento da proximidade com o Domínio da Caatinga que já se observa mais a frente, no Vale do Rio Jequitinhonha.

O Norte de Minas: O prenúncio do Semi-Árido!

A partir de Catuji, um município a 70 km a Norte de Teófilo Otoni, começamos a observar a mudança da vegetação de Florestas Semidecíduas para Florestas Decíduas (“Matas Secas”) (Foto 10), algo que para mim foi muito interessante! Era a primeira vez que observava in loco, manchas extensas de Florestas Decíduas e não apenas relictos que ocorrem aqui no Estado de São Paulo.

Esse era o prenúncio de que mudanças climáticas se faziam presente de forma bem pronunciada e uma mostra de que a Bacia do Rio Doce representa de fato o limite de distribuição de muitas espécies que ocorrem no corredor da Central e o corredor do Nordeste da Mata Atlântica. As Fotos 9 e 10, tiradas em Padre Paraíso (MG) em nada parecem o que víamos nas Fotos 5 a 7.

Ao longo de muitos trechos na Bacia do Jequitinhonha no Norte de Minas, uma Floresta Decídua em transição para uma Caatinga arbustivo/arbórea ainda descaracterizada (com poucos Cactos) era observada na paisagem (Foto 11). Nesse local, os Cactos só eram visíveis principalmente em afloramentos rochosos. Apenas espécies do gênero Cereus.

foto9Foto 9 – As formações arbustivo-arbóreas em transição para a Caatinga observadas do Norte de Minas Gerais, na Bacia do Jequitinhonha. Município de Padre Paraíso (MG).

foto 10Foto 10 – Florestas Decíduas, as “Matas Secas”, na Bacia do Jequitinhonha, através do eixo Rio Bahia no norte de Minas Gerais.

foto 11Foto 11 – Trechos de Floresta Decídua em Transição para Caatinga arbustivo/arbórea em Itaobim (MG) logo após o Rio Jequitinhonha.

Essa formação bem seca deu lugar às Florestas Semidecíduas do domínio Atlântico na chegada à Vitória da Conquista (Sul da Bahia) onde a altitude do município é de 923 m, muito superior ao dos municípios do norte mineiro citados acima (entre 150 a 500 m).

O Mosaico vegetacional do Sul da Bahia: a interface entre a Caatinga e a Mata Atlântica

Nesse momento do post, teremos que ficar de olho na variação altitudinal ao longo do percurso. Farei no post completo no eFlora um perfil altitudinal das principais cidades que atravessamos, pois essa informação é vital para entendermos a distribuição da vegetação ao longo do percurso.

Vejam que interessante. Saímos de Teófilo Otoni a 170 m de altitude. Chegamos a quase 950 m na Serra do divisor entre a Bacia do Rio Doce e do Jequitinhonha. Depois, o solo mudou e o clima também. Florestas Decíduas e vegetação assemelhada à Caatinga começou a aparecer. Atingimos Itaobim próximo ao Rio Jequitinhonha a 150 m de altitude. Em seguida começamos a subir novamente rumo à Vitória da Conquista (923 m). As florestas voltaram a predominar.

Foi que então, na próxima Serra depois de Vitória da Conquista e entre Planalto e Poções (BA) ao alcançar a altitude de 500 m, que começou a ocorrer de forma bem característica a fisionomia de Savana Estépica Arborizada (segundo o IBGE) (ou Caatinga Arbustiva) (Foto 12).

Em Jequié (BA), visitamos uma área muito interessante e que ilustra o mosaico da região relatado acima. A Foto 13 foi tirada por nós na parte mais alta da encosta. O que vimos a partir de então, basicamente, era as Caatingas ocorrem por volta dos 500 a 600 m de altitude e as fisionomias florestais com forte influência Atlântica a partir dos 700 m. Essas florestas em áreas montanas inseridas no semi-árido nordestino recebem também o nome de “Brejos de Altitude” e estão inseridas no domínio Mata Atlântica.

Regionalmente, essas florestas recebem também a denominação de “Matas de Cipós”. Coletei algumas espécies em campo e quero trabalhar a florística delas posteriormente na área premium do portal eFlora. A primeira vista, pudemos observar algumas espécies de distribuição restrita a essas porções de vegetação, tendo em vista que o entorno não é tão “familiar” à ocorrência delas.

foto12Foto 12 – Trecho de Caatinga arbustiva no município de Jequié (BA). Notar exemplar de Cereus yamacaru (mandacaru) à esquerda.

foto13Foto 13 – A Floresta Semidecídua no topo do morro e a Caatinga arbustiva nas partes planas em Jequiá, BA.

A exuberância da Caatinga no Semi-árido nordestino

Seguimos viagem pela Rio-Bahia (BR 116) e quando chegamos em Milagres (BA), deixamos essa rodovia e partimos para Juazeiro (BA) através da BR 407.

Entre Jequié e Milagres, essa transição citada na seção anterior ainda se mantinha presente tendo em vista que a região é marcada por afloramentos rochosos (Foto 14). Na região, havia muito uma palmeira que ocorria bastante na Caatinga arbustiva. Trata-se de Syagrus coronata (dendê, licuri). Eu, sinceramente, não imaginava encontrar uma palmeira bem inserida na Caatinga (Foto 15). Mais um aprendizado! J

foto 14Foto 14 – Os afloramentos rochosos na região de Milagres (BA). A luminosidade não estava adequada devido a garoa no trecho. Caatinga arbustiva nas partes baixas e Floresta Semidecídua nas encostas.

foto 15

Foto 15 – Caatinga arbustivo/arbórea com a presença de bromélias e Syagrus coronata (dendê) em Milagres (BA).

No trecho entre Milagres a Juazeiro (BA), os afloramentos rochosos diminuíram e a partir de então, extensas áreas de Caatinga arbustiva e rupícola foram vistas em diferentes estágios de conservação. As Cactaceae passaram a ser cada vez mais frequentes ao longo do nosso percurso rumo à divisa da Bahia com Pernambuco (Foto 16 a 19).

foto16Foto 16 – Caatinga antropizada pelo pastejo do gado e do bode. Em primeiro plano e abaixo, Pilosocereus polygonus (xique-xique) e, em seguida, o mandacaru (Cereus sp.).

foto 17Foto 17 – Trecho de Caatinga rupícola com predomínio de Jurema (Mimosa spp.) e Mandacarú Cereus spp.) próximo a Capim Grosso (BA).

foto 18Foto 18 – Trecho de Caatinga arbustiva em estágio médio de regeneração a caminho de Juazeiro (BA) pela BR 407.

foto 19Foto 19 – Açude seco na região de Senhor do Bonfim (BA). Córregos e riachos secos foram muito comuns de serem avistados ao longo do percurso.

O “velho Chico” no meio da Caatinga Nordestina

Entre Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), um verdadeiro oásis. O Rio São Francisco corta centenas de municípios ao longo do semi-árido em meio a uma paisagem de extrema seca e restrição ambiental, deflagrando um contraste muito forte  (Foto 20).

foto20Foto 20 – A Caatinga rupícola em primeiro plano e o Rio São Francisco ao fundo, em Petrolina (PE).

Efetuei muitas coletas nessa caatinga rupícola, já que alguns dos elementos endêmicos dessa flora estavam por lá, tais como as espécies de cacto e outras, como Ziziphus joazeiro (juazeiro) e Cnidoscolus quercifolius (mandioca-brava). Além disso, pude testar a Chave de Identificação nessa fitofisionomia pela primeira vez. Fiquei feliz em constatar que vários elementos saíram adequadamente na chave, o que mostra o seu potencial de uso em localidades bem distantes da região inicialmente proposta em 2008!

Nessa região, começou a dar o “ar da graça” uma das palmeiras mais lindas do Brasil. Ao longo das baixadas do Rio São Francisco pudemos constatar a regeneração de muitos indivíduos da palmeira Copernicia prunifera (carnaúba). Inclusive, em meio à Caatinga, pudemos flagrar a regeneração da espécie (Foto 21).

foto 21Foto 21 – Regeneração de Copernicia prunifera (carnaúba) em meio à Caatinga rupícola do Vale do São Francisco.

Continuamos o percurso analisando, descrevendo e coletando muitas espécies da Caatinga para os nossos treinamentos com certificado. Além disso, gravamos várias vídeo-aulas para o nosso canal do Youtube e que iremos liberando aos poucos. Não deixe de se inscrever em nosso Canal, ok?!

No próximo post, continuarei apresentando as paisagens que observei pelo caminho após Petrolina, em meio à Caatinga pernambucana. Valerá muito a pena você continuar me acompanhando!

Gostaria muito de saber o que achou desse primeiro post sobre a expedição Viajando com a Fitogeografia do portal eFlora! Críticas, dúvidas, opiniões e sugestões podem ser deixadas por você abaixo! Aproveite! Aguardo o seu retorno!

Até o próximo post!

 

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  • Rodrigo Polisel

    Que bom que gostou Theo!

  • Rodrigo Polisel

    Olá Caio! Irei divulgar outros posts sobre a Viagem aqui no blog. Acompanhe através do envio dos meus e-mails e posts no face. Obrigado pelo seu retorno. Abs!

  • Caio Flat

    Parabéns Rodrigo, espero que você volte mais vezes por esses lados do Brasil e nos traga mais conhecimento sobre essa vegetação quase que esquecida por muitos..

  • Theo

    Parabéns Rodrigo, e obrigado por enriquecer nosso conhecimento..