Florística da Restauração: A importância da escolha correta das espécies nos plantios de restauração

Florística da Restauração: A importância da escolha correta das espécies nos plantios de restauração

Bruno Almozara Aranha e Rodrigo Trassi Polisel

No post passado, eu, Bruno, escrevi sobre o que é invasão biológica e os riscos na utilização de espécies exóticas sem um estudo prévio do seu potencial invasor. Agora, tanto eu como o meu amigo e parceiro Rodrigo Polisel daremos continuidade sobre o assunto abordando com mais detalhes um problema muito comum: o plantio de mudas florestais de espécies incorretas para uma determinada região. A seguir, explicaremos porque isso é um problema, mesmo com mudas nativas, e indicar algumas fontes para orientar os profissionais a evitar esse erro.

A biodiversidade da flora brasileira é impressionantemente grande! Segundo o projeto Flora do Brasil 2020 são reconhecidos atualmente 46.353 espécies, sendo 4.751 de Algas, 32.992 de Angiospermas, 1.541 de Briófitas, 5.726 de Fungos, 30 de Gimnospermas e 1.313 de Samambaias e Licófitas. Isso é devido primeiro porque o Brasil tem a maior porção do seu território inserido na Zona Tropical (região do planeta onde vivem a maioria das espécies) e em segundo lugar a sua extensão territorial continental, o que proporciona uma grande quantidade de diferentes habitats.

A megabiodiversidade da flora brasileira é um importante patrimônio do nosso país, que possui além de valor estético e cultural, valor financeiro inestimável. A nossa biodiversidade é um componente fundamental dos ecossistemas tropicais para que eles mantenham o fluxo de serviços ambientais prestados para a nossa sociedade. Contudo, como são milhares de espécies, lidar com tanta variedade torna-se complicado e trabalhoso, pois é muito comum não conhecer a espécie e, consequentemente, seus riscos e usos recomendados assim como confundir uma espécie com outra parecida.

Saber identificar corretamente as espécies vegetais existentes no Brasil é um enorme desafio que requer muito estudo, dedicação e treino dos profissionais que atuam na área ambiental. Por isso, o Rodrigo disponibilizou o seu treinamento com certificado, o primeiro Curso ON-LINE sobre Identificação de Plantas, que ensina todos os passos para reconhecer as plantas com eficiência, qualidade e rapidez. Saiba mais sobre o curso aqui!

E essa habilidade é crucial quando temos que definir ou recomendar as espécies para um plantio de recuperação de áreas degradadas. As espécies vegetais possuem diferentes limites geográficos, habitats preferenciais e preferências ecológicas. Um ponto relevante na produção de mudas, por exemplo, é que populações podem ser isoladas geneticamente, ou seja, um grupo de indivíduos da mesma espécie que por qualquer barreira geográfica ou natural não trocam genes com outro agrupamento de indivíduos da mesma espécie. Esse ponto na genética de populações indica que devemos utilizar mudas produzidas localmente para projetos de restauração, evitando a utilização de mudas produzidas de lotes em viveiros longe da área a ser restaurada. Desrespeitar essas características pode ser prejudicial para o sucesso do plantio e até para os remanescentes de vegetação próximos.

Plantar mudas de espécies de outras regiões, mesmo que sejam do mesmo domínio vegetal, tem como consequências comprometer o desenvolvimento do plantio, pois as mudas podem não se desenvolver bem naquela região e você terá que gastar mais dinheiro com novas mudas; ou, por outro lado, ela poderá se desenvolver muito mais que as nativas regionais podendo causar desequilíbrio na flora do local por meio de invasões biológicas.

Para esse último caso, gostamos de citar o exemplo do Schizolobium parahyba (Vell.) Blake (guapuruvú) que é uma espécie arbórea, pioneira, da família Fabaceae e típica da Floresta Ombrófila Densa do domínio Mata Atlântica no litoral do estado de São Paulo. S. parahyba é muito plantado em projetos de recuperação de área degradada no interior de São Paulo na região da Floresta Estacional Semidecídua. Nesses plantios, S. parahyba se desenvolve muito rápido. Com um ano já tem mais de dois metros de altura e dá a impressão de que o plantio está indo muito bem. No entanto, o guapuruvú na verdade se comporta como uma espécie invasora e se dispersa pelas matas vizinhas (Foto 1). Ela é uma espécie nativa não regional com alto potencial invasor. Você já parou para pensar nisso?!

 

Foto 1: Schyzolobium parahyba (guapuruvú) em um fragmento degradado de Floresta Semidecídua em Amparo, SP.

“Ok, mas eu não preciso saber identificar o guapuruvú para saber que ele é uma espécie com potencial invasor, basta saber dessa informação e não recomendar ele para plantios fora de sua região natural!”

Sim, mas acontece que é muito comum as mudas serem identificadas com ERROS no próprio viveiro e assim serem enviadas de forma errada a plantios compensatórios. Assim, você pode até não indicar o plantio dessa espécie, porém ela pode vir por engano no lote de mudas para plantar. Esse engano ocorre tanto com mudas nativas não regionais como também com mudas exóticas que são vendidas como nativas.

Iremos descrever dois exemplos do que aconteceu conosco agora para vocês entenderem a gravidade da situação!

Em um plantio de recuperação que eu (Bruno) supervisionava, enquanto fazia uma vistoria desconfiei de uma muda e fui ver mais de perto para ver que espécie era. Para a minha surpresa era uma Cordia myxia L. (grão-de-porco), espécie exótica originária da Ásia, utilizada no Brasil para fins paisagísticos, que inclusive já era invasora das matas vizinhas (Foto 2). Por engano do viveiro essa espécie foi enviada como nativa e plantada na área que estava em recuperação. Veja só, ao invés de recuperar a área, estávamos fomentando a invasão dessa espécie! Ainda bem que eu soube identificá-la. Tivemos que arrancar todas as mudas plantadas e substituir, só que dessa vez por nativas. Uma perda de tempo e dinheiro.

Foto 2: Ramo de Cordia myxia (grão-de-porco) com frutos.

Já no meu caso (Rodrigo), tempos atrás, visitei uma casa de jardinagem e rações agrícolas num município do interior de São Paulo. Vi que o comerciante estava vendendo mudas de “espinheira-santa” aos clientes. Essa é uma espécie de elevado poder medicinal (tratamento contra úlceras gástricas e alivio a dores abdominais). Tal grupo se refere ao gênero Maytenus e, de modo geral, as espécies Maytenus aquifolia Mart. e Maytenus ilicifolia Mart. ex Reissek possuem essas propriedades. Para reconhecê-las, você deve observar os frutos tipo baga (geralmente de coloração amarelada) e organizados a partir de inflorescências cimosas. Vegetativamente, é difícil de reconhecer Maytenus spp., embora possuem bordo aculeado (outras espécies possuem este padrão de borda foliar). A dica que eu passo no meu curso on-line é observar os ramos novos achatados. Isso funciona bastante! #FicaADica! 🙂

Fiquei curioso e fui ver a muda. Para minha surpresa, a muda estava identificada incorretamente. Apesar do bordo também ser aculeado, a planta possuía látex e estípula terminal. Tratava-se de Sorocea bonplandii (Baill.) W.C.Burger et al. (falsa-espinheira) (Foto 3). O uso medicinal desta espécie é muito questionável, por isso não é recomendado. Você consegue imaginar o que a falta de informação pode produzir neste caso relatado?!

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Foto 3: Ramo adulto de Sorocea bonplandii (espinheira-santa) (A), confundida com frequência como Maytenus aquifolia (espinheira-santa) (B).Foto 3: Ramo adulto de Sorocea bonplandii (espinheira-santa) (A), confundida com frequência como Maytenus aquifolia (espinheira-santa) (B).

B Foto 3: Ramo adulto de Sorocea bonplandii (espinheira-santa) (A), confundida com frequência como Maytenus aquifolia (espinheira-santa) (B).

Como são milhares de espécies vegetais, a correta identificação botânica necessita de profissionais qualificados e isso às vezes é caro. Muitos viveiros florestais não contam com equipe especializada para essa tarefa. De acordo com um diagnóstico dos viveiros florestais no Brasil feito pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) em 2015, na maioria dos viveiros, a identificação das mudas é realizada por funcionários próprios, poucos consultam especialistas ou buscam a identificação em herbários. Assim, os erros se perpetuam e muitas mudas florestais de espécies exóticas são vendidas como nativas e mudas nativas são identificadas erradas e vendidas para regiões que não são as mais adequadas para o plantio.

Aqui no Estado de São Paulo, o Instituto de Botânica preparou uma lista com espécies para plantios de recuperação de áreas degradadas com a indicação da região e fitofisionomia adequada para o seu plantio. Essa lista pode ser acessada aqui. Desconhecemos iniciativas semelhantes em outros Estados, mas o projeto Flora do Brasil 2020 é uma fonte de informação muito útil para saber sobre a região de ocorrência natural de uma espécie. Contudo, a correta identificação botânica das mudas ainda depende da confiabilidade e profissionalismo da equipe do viveiro e da capacitação do profissional que recomenda e utiliza as mudas.

Assim, tão importante quanto conhecer os viveiros de sua região é saber se eles levam este assunto a sério e fornecem mudas adequadas para cada região.

 

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