As “Florestas Vazias” da Mata Atlântica

Ecologia

Volto a escrever sobre a regeneração de florestas, um assunto verdadeiramente importante para qualquer profissional que trabalha com consultoria ambiental no que tange a classificação de estágios sucessionais para estudos ambientais e diagnósticos de vegetação para fins de restauração ecológica.

Recentemente, publiquei um artigo aqui no blog sobre o desafio da conservação da biodiversidade em fragmentos pequenos.

Hoje trago mais informações para reafirmar esse desafio.

O texto do post é forte.

Ilustra o que está acontecendo em muitos remanescentes da Mata Atlântica e merece toda a nossa atenção.

Ao longo da sua leitura você irá entender o por que. Leia até o final.

Eu vou mostrar os efeitos da caça e degradação contínua na regeneração florestal da Mata Atlântica.

Irei apresentar também os principais resultados que encontramos nos estudos realizados ao longo de vários anos nos remanescentes florestais do entorno da base de campo da Brasil Bioma. Listo abaixo estes estudos (links de acesso ao final do post):

– Polisel, R.T. & Franco, G.A.D.C. 2010. Comparação florística e estrutural entre dois trechos de Floresta Ombrófila Densa em diferentes estádios sucessionais, Juquitiba, SP, Brasil. Hoehnea 37(4):691-718.

– Polisel, R.T. 2011. Florística e fitossociologia do estrato herbáceo e da regeneração arbórea de trecho de floresta secundária em Juquitiba, SP, Brasil. Ciência Florestal 21(2):229-240.

– Polisel, R.T. 2013. Levantamento fitossociológico e caráter sucessional de um trecho de floresta secundária ciliar em Juquitiba, SP, Brasil. Revista Árvore 37(5):789-799.

Eu sintetizei todas essas informações no meu vídeo mais recente do canal do YouTube.

O vídeo ficou excelente, pois apresento as informações através de um sobrevoo de drone no qual se percorre um trecho com dois estágios sucessionais distintos.

Assista ao vídeo abaixo.

Para saber mais sobre a mentoria citada ao final do vídeo, clique aqui.

Outros autores já abordaram a temática das “florestas vazias”.

Representa um tema recorrente da Ecologia de Florestas Tropicais.

Uma referência interessante e atual para que você possa se informar mais sobre o assunto é o artigo de Wilkei et al. (2011), publicado na Annals of the New York Academy of Sciences (link ao final do post).

Em suma, essa teoria preconiza que há um correlação direta entre a defaunação (caça) e a composição, estrutura florística e dinâmica sucessional de remanescentes de Floresta Tropical.

Não há consenso na literatura sobre quanto tempo leva para que uma área em processo de regeneração natural recupere o nível de riqueza de uma área próxima bem conservada.

O estudo de Tabarelli et al. (1994) indica uma média de 70 anos.

Os professores Marcelo Tabarelli e Waldir Mantovani realizaram vários estudos sobre a evolução sucessional da Mata Atlântica.

Eles estudaram muitos trechos de vegetação secundária no interior do Parque Estadual da Serra do Mar, núcleo Santa Virgínia. É importante ressaltar que o local se trata de uma Unidade de Conservação de proteção integral. Portanto, embora haja alguma pressão relacionada à caça ou extração seletiva de algum recurso florestal (p.e. Palmito-jussara – Euterpe edulis), há um histórico consolidado de preservação dos recursos naturais no local.

Nos estudos dos dois autores citados, a regeneração florestal realmente “caminhou” de forma satisfatória e em 70 anos, já foi possível verificar quase toda a riqueza arbórea de florestas conservadas em sistemas secundários, seja como plântula ou como regenerante de maior porte.

Entretanto, os nossos estudos em Juquitiba não se alinharam ao encontrado pela equipe do Professor Tabarelli em levantamentos localizados em Unidades de Conservação.

Os remanescentes florestais de Juquitiba possuem um histórico de uso completamente distintos.

A grande maioria das florestas foi desmatada de forma contínua no pós 2º Guerra a fim de suprir de lenha e carvão para São Paulo.

Em muitos trechos, houve desmatamento recorrente.

Ou seja, a própria vegetação secundária sofria a ação de sitiantes e imobiliárias que buscavam valorizar imóveis.

Mais recentemente, a região sofreu pela ação contínua de caçadores de mamíferos e grandes aves, muito relacionado pela proximidade ao grande centro urbano, haja vista que o município ainda se encontra na Região Metropolitana de São Paulo.

Há, ainda, a exploração seletiva intensiva que ainda se faz presente com “palmiteiros” atuando no município.

Este é outro impacto ambiental que as florestas da região estão submetidas.

Após a descrição de todos esses impactos em diferentes graus, duração e intensidade, voltemos a olhar então aos nossos remanescentes em Juquitiba.

O resultado dos nossos estudos, sintetizado através do vídeo acima, resume o que temos na região e, grosso modo, representa o que nós costumamos encontrar em florestas fora de Unidades de

Conservação e que foram submetidas à caça recente.

Temos aqui novamente a ideia do DISCLIMÁX atuando.

Há uma dificuldade no avanço do processo sucessional, tendo em vista que devido à falta de animais dispersores de grande porte, muitas espécies vegetais secundárias tardias não estão conseguindo se dispersar!

Se você não sabe o que é DISCLÍMAX, temos um artigo recente publicado aqui no blog eFloraWeb que traz maiores informações (link ao final do post).

Atenção, portanto, a você que trabalha na classificação da vegetação para fins de licenciamento ambiental.

Cabe aqui uma reflexão relevante:

Os modelos teóricos sobre Sucessão secundária afirmam que há um processo contínuo de aumento da riqueza e diversidade vegetal entre um trecho de floresta em estágio inicial rumo ao estágio avançado. Temos a ideia de que todos os parâmetros florísticos e estruturais avançam satisfatoriamente ao longo desse processo.

No entanto, a depender do histórico de uso e ocupação, esse processo pode sofrer modificações! Embora, no olhar do leigo, há uma floresta verdejante, no olhar técnico, temos um remanescente florestal com riqueza muito inferior ao que teríamos numa floresta bem conservada da região.

Em Juquitiba, vimos que o mesmo fragmento pode apresentar trechos com riqueza de espécies muito distinta, resultado da ação diferencial no uso e ocupação e de tudo relacionado à consequência negativa da caça no padrão de regeneração florestal.

Um exemplo muito claro disso é o padrão de distribuição da espécie Salacia elliptica (Foto 1) ao longo do fragmento estudado e apresentado no sobrevoo do drone.

Ecologia da Mata Atlântica

Foto 1: Ramo de Salacia elliptica (bacupari-da-mata) com fruto imaturo verde.

A espécie é rara na região de Juquitiba e, quando encontrada, ocorre no sub-bosque de florestas bem conservadas.

A espécie ocorre no trecho bem conservado mostrado no vídeo.

Há alguns indivíduos adultos ocupando o sub-bosque por lá com estatura que não ultrapassa os 4 m.

Trata-se de árvores de pequeno porte e que completam todo o seu ciclo de vida no interior da floresta.

Note que a espécie produz frutos grandes com até 8 cm de diâmetro.

Portanto, sua dispersão DEPENDE de mamíferos ou aves de grande porte frugívoras.

Tendo em vista que esses animais são muito raros na região, a espécie possui uma dificuldade notória em se dispersar.

E realmente observamos o fato in loco.

Até o momento, não encontramos nenhum indivíduo em processo de regeneração natural nos remanescentes de floresta secundária do entorno.

O que acontece com o Bacupari-da-mata também acomete outras espécies que produzem frutos grandes.

É o caso de secundárias tardias das Famílias Humiriaceae, Fabaceae, Sapotaceae e entre outras.

É o efeito da defaunação ou o que um grupo de pesquisadores chamam de “Florestas Vazias” na nossa Mata Atlântica!

Claro que as florestas secundárias hoje existentes na região cumprem um papel muito importante na conservação de boa parte dos recursos naturais.

Representam abrigo e habitat para uma série de outros animais ainda existentes na região. Inclusive, sobre os animais que ocorrem nas proximidades da base de campo, voltarei ao tema num próximo post, apresentando dados de nossas câmeras Trap instaladas no local.

Embora tenha havido uma caça intensiva, muitos persistem no local e você irá se surpreender quando eu apresenta-los a você.

Tais florestas secundárias, no entanto, possuem lacunas florísticas importantes, que passam praticamente despercebidas por profissionais da consultoria ambiental mal preparados para realizar um verdadeiro diagnóstico ambiental para fins de valoração da biodiversidade e planejamento de ações da restauração ambiental.

O que vimos no vídeo, portanto, foi um trecho de floresta em estágio avançado de regeneração com espécies arbóreas indicadoras (p.e.: Copaifera trapezifolia – pau-óleo, Aspidosperma olivaceum – guatambu e Parinari excelsa – pajurá), de acordo com a Resolução SMA/IBAMA 01/1994, e em seu entorno, uma grande matriz de vegetação em estágio médio de regeneração, composta ainda por muitas pioneiras no dossel, como é o caso de Tibouchina pulchra (manacá-da-serra).

Entre ambos os trechos, há uma diferença de riqueza arbórea considerável.

Enquanto que na floresta em estágio avançado há mais de 150 espécies no dossel, na floresta em estágio médio há pouco mais de 70. Ou seja, a metade!

Numa situação como essa, por exemplo, um enriquecimento florestal poderia trazer de volta algumas espécies secundárias tardias de frutos grandes aos remanescentes de vegetação secundária em estágio médio de regeneração! Trata-se de uma das metodologias para a restauração ambiental propostas pelo Programa Muda Certa.

Se você não conhece o programa, saiba mais aqui.

Percebe o quão preparado você precisa estar para se destacar no mercado de trabalho?

Você precisa saber aplicar a teoria ecológica na prática. Saber compreender os desafios da classificação da vegetação para fins de licenciamento ambiental e entender a importância disso ao longo de todo o processo de tomada de decisão do licenciamento.

Adquirir conhecimento lhe abrirá novas oportunidades de trabalho, seja você um profissional liberal ou um consultor contratado em empresa de consultoria ambiental!

Visando preparar o profissional aos desafios atuais do mercado de trabalho, eu acabo de lançar um projeto completamente novo na área ambiental!

Trata-se da 1ª Turma do Programa de Mentoria com Rodrigo Polisel que se iniciará em março/2019 e irá até junho/2019! Conheça o programa completo aqui.

Para maiores informações ou dúvidas em relação aos conteúdos apresentados no post da semana do blog, basta deixar um comentário abaixo ou entrar em contato comigo via e-mail.

Até a próxima!

Rodrigo Trassi Polisel (E-mail: [email protected])

 

Links de conteúdos citados no post:

Polisel, R.T. & Franco, G.A.D.C. 2010. Comparação florística e estrutural entre dois trechos de Floresta Ombrófila Densa em diferentes estádios sucessionais, Juquitiba, SP, Brasil. Hoehnea 37(4):691-718.

Polisel, R.T. 2011. Florística e fitossociologia do estrato herbáceo e da regeneração arbórea de trecho de floresta secundária em Juquitiba, SP, Brasil. Ciência Florestal 21(2):229-240.

Polisel, R.T. 2013. Levantamento fitossociológico e caráter sucessional de um trecho de floresta secundária ciliar em Juquitiba, SP, Brasil. Revista Árvore 37(5):789-799.

– Wilkei et al. (2011), publicado na Annals of the New York Academy of Sciences

– Artigo no eFlora Web: http://www.efloraweb.com.br/uma-floresta-em-declinio-a-conservacao-da-biodiversidade-em-pequenos-fragmentos/

Referências:

Tabarelli, M.; Villani, J.P. & Mantovani, W. 1994. Estudo comparativo da vegetação de dois trechos de floresta secundária no Núcleo Santa Virgínia, Parque Estadual da Serra do Mar, SP. Revista do Instituto Florestal 6:1-11.

Wilkie, D.S.; Bennett, E.L.; Peres, C.A.; Cunningham, A.A. 2011. The Empty Forest revisited. Annals of The New York Academy of Sciences 1223:120-128.

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