5 Áreas de Tensão Ecológica da Mata Atlântica

Região de transição ecológica no centro sul da Bahia, com a Floresta Estacional (chamada na região de “Mata de Cipó”) nas áreas de maior altitude e a Savana Estépica Arborizada (Caatinga arbustiva) nas áreas suavemente onduladas de altitudes mais baixas

Neste post relato algumas áreas de tensão ecológica da Mata Atlântica.

De 2016 a 2017, efetuei uma série de viagens rodoviárias pelo país conhecendo a vegetação com o intuito de gravar videoaulas para o meu canal do YouTube e cursos intensivos do Portal eFlora.

Cruzei os Estados do Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil de Gramado (RS) até Teresina (PI) em diferentes expedições.

Durante todo esse percurso, as regiões mais intrigantes foram aquelas que se localizam em zonas de transição ecológica!

Nessas áreas, a classificação oficial (IBGE ou oriunda de órgãos Estaduais) possui vários equívocos, pois a escala de abordagem é muito diferente da observada no campo.

Em alguns casos, temos dois tipos de vegetação co-ocorrendo simultaneamente.

É praticamente impossível mapear essa condição numa escala Estadual ou Nacional, ao menos que se faça uma checagem de campo MUITO fiel, o que é praticamente impossível.

Ao longo do post, eu trago um caso prático disso.

Me acompanhe até o final!

Aqui, eu gostaria de apresentar para você alguns trechos em transição ecológica, discutindo a singularidade de cada região explicitada.

É intrigante analisar como se dá a distribuição da vegetação nessas zonas de contato.

Curta essa viagem comigo através deste post!

Quem se interessa pelo tema, certamente, irá curtir essas informações.

Não se esqueça de compartilhar esse post em suas redes e deixar o seu comentário abaixo sobre alguma outra região de transição ecológica que conhece e acha interessante!

5 Áreas de Tensão Ecológica da Mata Atlântica

1º) Serra do Rio do Rastro, Santa Catarina

Serra do Rio do Rastro, Santa Catarina

Foto 1: Vista da Pedra Furada no Parque Nacional de São Joaquim, em Urubici (SC).

As escarpas da Serra Geral vislumbram uma paisagem de tirar o fôlego!

Umas das belezas cênicas mais impactantes do Brasil.

A Serra do Rio do Rastro está localizada na região Sudeste de Santa Catarina no município de Bom Jardim da Serra em meio a uma escarpa muito abrupta da borda leste da Serra Geral.

Inclui esse trecho aqui como em transição ecológica para salientar o contato abrupto entre a flora de terras baixas e submontana da Mata Atlântica (Floresta Ombrófila Densa) localizada na planície até o pé da serra rumo ao litoral catarinense e a flora montana e altomontana de cima da Serra (Floresta Ombrófila Mista e Campos de altitude), que possui elementos muito típicos e característicos.

Ou seja, dois conjuntos florísticos e fisionômicos COMPLETAMENTE distintos da Mata Atlântica.

Na região do planalto, os “Campos naturais do Alto de Cima da Serra” formam um mosaico com as florestas com araucária nas grotas e baixadas úmidas.

A região é marcada pela presença de espécies endêmicas e/ou típicas de áreas frias da Mata Atlântica, como é o caso de muitos representantes de Ericaceae, Asteraceae e a espécie Gunnera maricata (Gunneraceae), endêmica do Sul do Brasil em elevadas altitudes.

O vídeo abaixo vale mais do que mil fotos.

Ele mostra a beleza da região e a periculosidade da estrada SC 390, reconhecida como uma das estradas mais perigosas do Brasil, principalmente no trecho de Bom Jardim da Serra e Lauro Müller.

As fotos 1 e 2 representam algumas das belezas da região da Serra Catarinense.

Gunnera manicata (Gunneraceae)

Foto 2: Gunnera manicata (Gunneraceae), uma espécie endêmica dos campos de altitude da Região Sul do Brasil.

2ª) Os encraves de Cerrado no centro paranaense

Parque Estadual de Vila Velha

Foto 3: Trecho de fisionomia campestres na região do Parque Estadual de Vila Velha, Ponta Grossa, PR. (Fonte: APA DA Escarpa Devoniana: uma verdadeira sala de aula. Profa. Lia Maris Orth Ritter Antiqueira)

Quem disse que no Paraná não tem Cerrado?!

Se você estiver viajando pelo Paraná e quiser conhecer esse achado fitogeográfico, você deve se deslocar até a região de Ponta Grossa e um ponto turístico bem bacana sugerido é o Parque Estadual de Vila Velha (Foto 3).

Eu gravei um vídeo sobre o local.

Há varias paisagens interessantes capturadas por nós nesse vídeo.

Está no meu canal do YouTube, mas você pode assistir abaixo.

Aperte o play e aproveite!

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Dentre outras ações, essa Unidade de Conservação objetiva conservar trechos de fisionomia savânica e campestre de Cerrado, apresentando espécies vegetais indicadoras e caracterizadoras desta formação, como é o caso de Annona coriacea (marolo), Byrsonima intermedia (murici-do-cerrado), Caryocar brasiliense (pequi-do-cerrado), Austroplenckia populnea (marmelo-do-campo), Leptolobium subelegans (vinhático), Roupala Montana (carne-de-vaca) e Machaerium acutifolium (jacarandá-do-cerrado).

Os Cerrados paranaenses se localizam no Segundo Planalto Paranaense em escarpas do Devoniano em substrato arenítico e, principalmente, sobre afloramentos. Conheça mais a flora e a estrutura desses cerrados no estudo publicado por Ritter et al. (2010). Baixe o artigo aqui.

É comum na região, por exemplo, observarmos paisagens como está restrita em afloramentos rochosos.

Uma vegetação adaptada a ambientes secos em meio a uma matriz formada por Florestas com araucária (Foto 4).

Cereus hildmannianus (mandacaru)
Foto 4: Cereus hildmannianus (mandacaru) em regeneração sob afloramento rochoso no município de Sengés, PR.

3ª) O Ecótono Cerrado e Mata Atlântica no Estado de São Paulo

Fisionomia de Ecótono entre a Mata Atlântica e o Cerrado

Foto 5: Fisionomia de Ecótono entre a Mata Atlântica e o Cerrado em Baurú, oeste paulista.

Imagine a seguinte situação:

Você está num fragmento de floresta no interior do Estado de São Paulo, mais precisamente na região da depressão periférica, onde predomina solos arenosos bem formados, no centro paulista.

A partir de conhecimentos prévios, você sabe que a região detém tanto remanescentes de Cerrado de diversas fitofisionomias como de Floresta Semidecídua da Mata Atlântica.

Até aí, tudo bem!

Eis que surge uma demanda de trabalho sua que é caracterizar o fragmento de reserva legal da foto 5 no intuito de determinar se o mesmo é uma Floresta Semidecídua ou um Cerradão.

Para tanto, você executa um levantamento florístico e coleta os seguintes resultados principais:

– As espécies mais abundantes são: Copaifera langsdorffii (óleo-de-copaíba), Ocotea corymbosa (canela) e Vochysia tucanorum (tucaneiro) (GRUPO 1);

– Outro grupo de espécies foi visto de maneira ocasional: Cariniana estrellensis (jequitibá), Ceiba speciosa (paineira) e Piptadenia gonoacantha (pau-jacaré) (GRUPO 2); e

– E um último grupo de espécies de ocorrência ocasional também foi visto e as principais espécies são: Anadenanthera falcata (angico-do-cerrado), Caryocar brasiliense (pequizeiro) e Xylopia aromatica (escova-de-macaco) (GRUPO 3).

A observação dessas espécies permite que um profissional com experiência em Taxonomia de Campo e Classificação de Vegetação trace o seguinte panorama:

– Grupo 1: Espécies típicas das zonas de transição. Podem ser encontradas tanto em Cerrados como em remanescentes florestais de Mata Atlântica.

– Grupo 2: Espécies tipicamente florestais. Ocorrem na Floresta Semidecídua.

– Grupo 3: Espécies caracterizadoras de Cerrado senso-stricto e Cerradão.

Bem, e aí, qual a classificação do remanescente florestal ilustrado na Foto 5? Ser um Cerradão ou uma Floresta Semidecídua faz toda a diferença na compensação ambiental da propriedade, já que a Lei da Mata Atlântica e a Lei do Cerrado são completamente distintas no que tange à compensação.

Seria um fragmento de Floresta Semidecídua se não houvesse as espécies do Grupo 3. Seria um Cerradão se não houvesse as espécies do Grupo 2.

Qual a real tipificação fitogeográfica dessa vegetação?

Estamos diante do que os fitogeógrafos paulistas conhecem como Ecótono florestal. Caracterizado quando espécies generalistas predominam além da presença ocasional de espécies florestais e de cerrado. Por se tratar de uma área transicional, esse ecótono é enquadrado na Lei da Mata Atlântica, pois na lei se inclui as áreas sob tensão ecológica da Mata Atlântica.

Segundo a Lei nº 11.428/2006 e Decreto Federal nº 6.660/2008 conseguimos entender bem esse aspecto, veja abaixo um trecho do Decreto Federal nº 6.660/2008 que deixa claro esse conceito:

“Art. 1º – O mapa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, previsto no art. 2o da Lei no 11.428, de 22 de dezembro de 2006, contempla a configuração original das seguintes formações florestais nativas e ecossistemas associados: Floresta Ombrófila Densa; Floresta Ombrófila Mista, também denominada de Mata de Araucárias; Floresta Ombrófila Aberta; Floresta Estacional Semidecidual; Floresta Estacional Decidual; campos de altitude; áreas das formações pioneiras, conhecidas como manguezais, restingas, campos salinos e áreas aluviais; refúgios vegetacionais; áreas de tensão ecológica; brejos interioranos e encraves florestais, representados por disjunções de Floresta Ombrófila Densa, Floresta Ombrófila Aberta, Floresta Estacional Semidecidual e Floresta Estacional Decidual; áreas de estepe, savana e savana-estépica; e vegetação nativa das ilhas costeiras e oceânicas.”

Percebeu o quão complexa são essas regiões?!

É impossível compreender essas áreas e efetuar a adequada caracterização sem ter o perfeito conhecimento dos limites e fatores de distribuição tanto da Mata Atlântica e do Cerrado.

4ª) A transição Caatinga/Mata Atlântica no Norte de Minas Gerais

Vegetação de transição da Mata Atlântica com a Caatinga em Padre Paraíso, Norte de Minas Gerais.

Foto 6: Vegetação de transição da Mata Atlântica com a Caatinga em Padre Paraíso, Norte de Minas Gerais.

Em meio à nossa expedição da série “Viajando com a Fitogeografia” para o Estado de Piauí partindo de São Paulo capital, cruzamos o Vale do Rio Jequitinhonha no Norte de Minas Gerais pela conhecida “Rio-Bahia” (BR 116).

A partir de Teófilo Otoni e rumo ao Estado da Bahia, as florestas semidecíduas deram lugar a florestas decíduas e, a partir do município de Padre Paraíso (MG), uma vegetação arbustivo-arbórea com até 5 m de altura com predomínio de Combretum spp. (Combretaceae), Malvaceae e Euphorbiaceae se tornou evidente aos nossos olhos.

Fui atrás de fontes oficiais para saber como esses órgãos denominam essa vegetação (Foto 6 e Foto 7).

Ao me deparar com o site do Instituto Estadual de Florestas, logo de cara, eu já fiquei preocupado com a classificação adotada, pois relacionou os domínios fitogeográficos e as formações de vegetação de forma muito equivocada.

No site, por exemplo, é informado que Caatinga e Floresta Decídua são sinônimos (Foto 8).

No site, ainda, campos de altitude e campos rupestres são tratados como a mesma coisa!

Na verdade, representam formações campestres de natureza geológica e fundamentação florística completamente distintas.

Veja em destaque (em vermelho) na Foto 8 os problemas conceituais encontrados apenas para esse trecho do site.

Todas essas questões eu abordo em detalhes no curso online e intensivo sobre a Classificação da Vegetação e Estágios Sucessionais da Mata Atlântica e do Cerrado.

Portanto, no site do IEF certamente eu não encontraria a minha resposta.

O IBGE (2012) indica que a região é coberta por tipologias com o código SN (Contato Floresta Estacional e Savana), Florestas Semidecíduas e a norte do Rio Jequitinhonha a designação Ta (Savana Estépica Arborizada).

Em cima do local está indicado Floresta Semidecídua.

Algo improvável, pois na região as Florestas possuem outra estrutura e composição florística.

Ou seja, a escala de abordagem do mapa de classificação dos biomas e tipos de vegetação do Brasil não é indicada ao objetivo de auxiliar na classificação do que vi em Padre Paraíso.

Percebe a complicação?!

Com base nos estudos de Afrânio Fernandes, grande fitogeógrafo do domínio da Caatinga, muito possivelmente o que vemos na Foto 5 e 6 já representa uma feição de Caatinga Arbustiva (ou Savana Estépica Arborizada, segundo o IBGE).

O autor possui vários livros sobre Caatinga disponíveis em Livrarias e lojas virtuais.

Fisionomia de Caatinga arbustiva em zona de transição no Norte de Minas Gerais com predomínio arbustivo-arbóreo de baixa estatura.

Foto 7: Fisionomia de Caatinga arbustiva em zona de transição no Norte de Minas Gerais com predomínio arbustivo-arbóreo de baixa estatura.

IEF-MG com problemas conceituais a cerca da classificação da vegetação

Foto 8: Print do site do IEF-MG com problemas conceituais a cerca da classificação da vegetação (Fonte: http://www.ief.mg.gov.br).

5ª) O encrave de Mata Atlântica no Sul da Bahia

Região de transição ecológica no centro sul da Bahia, com a Floresta Estacional (chamada na região de “Mata de Cipó”) nas áreas de maior altitude e a Savana Estépica Arborizada (Caatinga arbustiva) nas áreas suavemente onduladas de altitudes mais baixas

Foto 9: Região de transição ecológica no centro sul da Bahia, com a Floresta Estacional (chamada na região de “Mata de Cipó”) nas áreas de maior altitude e a Savana Estépica Arborizada (Caatinga arbustiva) nas áreas suavemente onduladas de altitudes mais baixas.

No caso anterior, vimos que a transição se deu de uma forma gradual. O que foi classificado como Caatinga arbustiva não é a mais típica do domínio, pois está numa zona de transição com outra tipologia de vegetação bem distinta que é a Floresta Decídua.

Portanto, essa caatinga no Norte de Minas Gerais recebe influencia do entorno.

Agora, no Sul da Bahia mais precisamente no município de Jequié, temos uma ideia de como a Mata Atlântica ocorre no interior do Nordeste.

Ela se distribui principalmente em encraves bem definidos caracterizados por morrarias, planaltos e chapadas de maior altitude onde a umidade do ar é maior e o índice pluviométrico também e bem distinto do entorno povoado por Caatingas arbóreas, arbustivas ou herbáceas.

Como se pode observar na Foto 9, nessa porção mais elevada ocorre uma floresta conhecida na região como “Mata de Cipó” com elementos florísticos reconhecidamente atlânticos, com muitas espécies endêmicas e fisionomia nitidamente florestal semidecídua.

Em seu entorno, na menor altitude, predomina a Caatinga Arbustiva e suas espécies caracterizadoras, tais como: Mimosa spp. (jurema), Cereus hildmannianus (mandacaru), Pilosocereus gounellei (xique-xique), Ziziphus joazeiro (juazeiro) e entre outras.

Portanto, uma lição que eu costumo passar e deixar bem claro no meu curso online sobre Classificação da Vegetação de Mata Atlântica e Cerrado é que os domínios fitogeográficos não possuem limites tão definido como nós gostaríamos que eles tivessem!

Há intersecções entre eles, áreas de contato e zonas disjuntas em que um ocorre sobre o outro.

E esse tipo de caracterização só é possível, na grande maioria dos casos, através de uma boa checagem de campo a partir das informações que eu compartilho com os alunos.

Foto 9: Região de transição ecológica no centro sul da Bahia, com a Floresta Estacional (chamada na região de “Mata de Cipó”) nas áreas de maior altitude e a Savana Estépica Arborizada (Caatinga arbustiva) nas áreas suavemente onduladas de altitudes mais baixas.

Portanto, a classificação das formações de vegetação em zonas de transição só é possível a partir de uma análise fidedigna de dois elementos da paisagem: o florístico (identificação das espécies) e o fisionômico (classificação da estrutura da vegetação).

Por conta disso, eu aproveitei a expedição realizada pelo Brasil e muito resumida nesse post para gravar vídeo aulas de um novo curso online e intensivo de conteúdo exclusivo e voltado à caracterização da Mata Atlântica e do Cerrado.

Trata-se do Curso “Bases Ecológicas e Fitogeográficas na Classificação da Vegetação de Mata Atlântica e do Cerrado”, que está disponível para aquisição com valor promocional!

Esse curso tem como foco atender a profissionais da área ambiental que executam atividades de campo e necessitam caracterizar a vegetação da Mata Atlântica e do Cerrado tanto do ponto de vista fitogeográfico (p.e.: definir quais são os limites da Floresta Ombrófila Densa, Floresta Estacional Semidecídua e assim por diante) como do ponto de vista sucessional (p.e.: indicar o estágio sucessional de um trecho de Mata Atlântica em processo de regeneração natural).

Clique aqui e conheça a proposta do curso!

Não se esqueça de deixar um comentário abaixo sobre o que achou desse post e indicar outras áreas de transição ecológica que você conhece.

Até a próxima!

Rodrigo Polisel

E-mail: [email protected]

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