4 Estudos de Caso que atestam as falhas do sistema do IBGE para classificação da vegetação Brasileira

4 Estudos de Caso que atestam as falhas do sistema do IBGE para classificação da vegetação Brasileira

No post da semana passada, você teve a oportunidade de saber um pouco mais sobre o sistema oficial de classificação da vegetação Brasileira, o sistema do IBGE.

Hoje, quero discutir um pouco algumas imprecisões deste sistema e divulgar aqui a existência de outras tentativas de classificar a vegetação desse país, que possui dimensões continentais!

Nos últimos dois anos, eu tive a oportunidade de cruzar o país do Nordeste ao Sul, descrevendo os tipos de vegetação, as transições e as peculiaridades florísticas que só viajando e conhecendo é capaz de captar e reconhecer. Tudo isso será compilado num LIVRO MULTIMÍDIA, que em breve estará à disposição de qualquer interessado em saber mais sobre a vegetação do Brasil.

Inicialmente, eu gostaria de indicar três revisões sobre o tema “Fitogeografia do Brasil” que lhe poderão ser muito úteis caso almeje se aprofundar sobre o tema, além da própria bibliografia do IBGE:

– Fernandes, A. 2000. Fitogeografia brasileira, 2ª ed. Ed. Multigraf, Fortaleza, 340p.

– Fernandes, A. & Bezerra, P. 1990. Estudo fitogeográfico do Brasil. Ed. Stylus Comunicações, Fortaleza, 205p.

– IBGE. 2012. Manual técnico da vegetação brasileira. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Rio de Janeiro, 189p.

– Rizzini, C. T. 1976. Tratado de fitogeografia do Brasil. Vol.1, 1ª ed. EDUSP, São Paulo, 327p.

Este post serve para todos aqueles que possuem interesse por VEGETAÇÃO BRASILEIRA!

Analisaremos aqui as propostas recentes publicadas pelo Prof. Dr. Ary Teixeira Oliveira-Filho (UFMG), do qual possuo um grande apreço. Além disso, trago algumas informações de campo que registrei ao longo das jornadas da série “Viajando com a Fitogeografia” do Portal eFlora.

Você pode baixar os trabalhos recentes publicados pelo Prof. Ary através dos links a seguir:

Classificação das Fitofisionomias da América do Sul Cisandina Tropical e Subtropical: Proposta de um novo Sistema – Prático e Flexível – Ou uma injeção a mais de caos?

Um sistema de classificação fisionômico-ecológico da vegetação neotropical: segunda aproximação

O Prof. Ary foi forçado a propor um novo sistema de classificação da vegetação Brasileira por conta da demanda de ter que classificar os mais de 2.500 sítios amostrais que ele compilou no Banco de dados denominado NeotropTree e proposto por ele.

Saiba mais sobre esse banco de dados aqui. Trata-se de uma iniciativa incrível e que tem contribuído muito para o avanço do conhecimento sobre a Vegetação Brasileira.

Problemas na Classificação do IBGE!

Estudo de Caso 1: A questão da escala

Campos Gerais do Paraná

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Foto 1: Afloramento rochoso próximo à Ponta Grossa, PR, não mapeado pelo IBGE.

Certamente, esse é o principal problema a ser enfrentado a quem utiliza o sistema do IBGE para a classificação da vegetação. Por isso, atenção!!!

Essa é uma foto que tirei em Sengés, próximo à Ponta Grossa, entre o 1º e o 2º Planalto Paranaense. De acordo com o IBGE, no local, ocorre a Floresta Ombrófila Mista, popularmente conhecida como Floresta com Araucária.

No entanto, ao longo dos deslocamentos que realizei pela região, vários trechos de Campos sobre Afloramento e Campos Cerrados sobre solos drenados não foram mapeados.

A escala do IBGE é de 1:250.000 até 1:1.000.000. Isso significa que cada 1 cm reúne o que se tem numa extensão de 2,5 a 10 km. Apesar de sua admirável funcionalidade e nomenclatura com grande poder de interpretação ecológica, o Sistema do IBGE não foi concebido para distinguir unidades de mosaicos de vegetação complexos, como os Cerrados/Floresta com Araucária no Centro Parananese, além daqueles encontrados em cumes rochosos de serras e montanhas, nas planícies de inundação, nas calhas de rios e nas restingas (Fonte: Prof. Ary Oliveira-Filho).

Estudo de Caso 2: Vegetações não mapeáveis

Ainda sobre a questão da escala, vamos analisar outro estudo de caso.

Observe a Foto 2 abaixo e responda: Qual o nome dessa vegetação, segundo IBGE (2012)? Essa é uma vegetação comum de áreas inundáveis na região da Ilha do Bananal, no Tocantins.

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Foto 2: Ipuca fragmentada no município de Lagoa da Confusão, Tocantins. (Fonte: SECOM.GOV.BR)

Vou ajuda-lo(a)!

O recorte do mapa de IBGE para o município de Lagoa da Confusão está na figura 1 abaixo.

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Figura 1: Classificação da vegetação de acordo com mapeamento oficial do IBGE. Legenda no texto.

Ou seja, de acordo com o IBGE, temos na região da Ilha do Bananal (destacada em vermelho na Figura 1) um mosaico de Savana Arborizada (SA), Savana Parque (SP) e Ecótono de Cerrado e Floresta Estacional. No entanto, em campo, encontramos uma vegetação de porte arbóreo em verdadeiras manchas isoladas ocorrendo em planícies sobre lençol freático aflorante (Foto 2).

Trata-se das Ipucas! Este tipo de vegetação, que é local e peculiar de uma região ESPECÍFICA do Brasil, não foi considerado no mapeamento do IBGE claramente por questões de escala!

Ipucas consistem em fragmentos de floresta alagável que abriga espécies vegetais típicas da Floresta Amazônica e Mata Atlântica na planície do Araguaia, em meio ao cerrado. Inundações que em outras regiões ou situações seriam alvo de transtorno e mesmo tragédia, na área de ipucas é fator determinante para renovar o ciclo da vida, ao manter constante o lençol freático e a umidade do solo.

As ipucas podem ser consideradas mantenedoras da quantidade e qualidade dos mananciais hídricos, inclusive no “trabalho” de interligação, através do transbordamento, por entre rios, lagoas e lagos no período chuvoso. No Tocantins, estão localizadas nas várzeas do vale do rio Araguaia e seus afluentes tributários, próximo aos municípios de Pium, Lago da Confusão e Formoso do Araguaia (Fonte: SECOM/TO).

Com base no sistema de classificação da vegetação do Prof. Ary, essa fisionomia local possui uma denominação e seria: Floresta Latifoliada Equatorial Estacional Seca Perenifólia Paludícola de Baixadas. Clique aqui e saiba mais sobre esse sistema de classificação.

Estudo de Caso 3: A altitude define tudo?!

As “Matas Nebulares” equivalem a Florestas Altomontanas sempre?

Segundo o IBGE, as formações propriamente ditas são classificadas com base na variação altitudinal. A seguir, as distinções propostas pelo IBGE.

– Floresta Ombrófila Densa:

  • Floresta Ombrófila Densa Aluvial: ao longo dos flúvios.
  • Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas: de 4º lat. N a 16º lat. S, de 5 m até em torno de 100 m; de 16º de lat. S a 24º lat. S, de 5 m até em torno de 50 m, de 24º lat. S a 32º lat. S, de 50 m até em torno de 30 m.
  • Floresta Ombrófila Densa Submontana: de 4º de lat. N a 16º lat. S, de 100 m até em torno de 600 m; de 16º de lat. S a 24º de lat. D, de 50 m até em torno de 500 m; de 24º de lat. S a 32º de lat. S, de 30 m até me torno de 400 m.
  • Floresta Ombrófila Densa Montana: de 4º de lat. N a 16º de lat. S, de 600 m até em torno de 000 m; de 16º de lat. S a 24º de lat. S, de 500 m até em torno de de 1.500 m; de 24º de lat. S a 32º de lat. S, de 400 m até em torno de 1.000 m.
  • Floresta Ombrófila Densa Alto Montana: situadas acima dos limites extremos das altitudes das formações montanas.

– Floresta Ombrófila Mista:

  • Floresta Ombrófila Mista Aluvial: ao longo dos flúvios;
  • Floresta Ombrófila Mista Submontana: de 24º de lat. S a 32 º de lat. S, de 30 m até em torno de 400 m;
  • Floresta Ombrófila Mista Montana: de 16 º de lat. S a 24º de lat. S, de 500 m até em torno de 500 m; de 24º de lat. S a 32º de lat. S, de 400 m até em torno de 1.000 m;
  • Floresta Ombrófila Mista Alto-Montana: situadas acima dos limites extremos das altitudes das formações montanas.

– Floresta Estacional Semidecidual:

  • Floresta Estacional Semidecidual Aluvial: ao longo dos flúvios;
  • Floresta Estacional Semidecidual de Terras Baixas: de 4º de lat. N a 16º de lat. S, de 100 m até em torno de 600 m; de 16º de lat. S a 24º de lat. S, de 5 m até em torno de 500 m; de 24º de lat. S a 32º de lat. S, de 30 m ate em torno de 400 m;
  • Floresta Estacional Semidecidual Submontana: de 4º de lat. N a 16º de lat S, de 100 m até em torno de 600 m; de 16º de lat. S a 24º de lat. S, de 50 m até em torno de 500 m; de 24º de lat. S a 32º de lat. S, de 30 m até em torno de 400 m;
  • Floresta Estacional Semidecidual Montana: de 4º de lat. N a 16º de lat. S, de 600 m até em torno de 000 m; de 16º de lat. S a 24º de lat. S, de 500 m até em torno de 1.500 m; de 24º de lat. S a 32º de lat. S, de 400 m até em torno de 1.000 m.

– Floresta Estacional Decidual:

  • Floresta Estacional Decidual Aluvial: ao longo dos flúvios;
  • Floresta Estacional Decidual de Terras Baixas: de 4º de lat. N a 16º de lat. S, de 100 m até em torno de 600 m; de 16º de lat. S a 24º de lat. S, de 50 m até em torno de 500 m; de 24º de lat. S a 32º de lat. S, de 30 m até em torno de 300 m de altitude;
  • Floresta Estacional Decidual Submontana: de 4º de lat. N a 16º de lat. S, de 100 m atpe em torno de 600 m; de 16º de lat. S a 24º de lat. S, de 50 m até em torno de 500 m; de 24º de lat. S a 32º de lat. S, de 30 m até em torno de 400 m de altitude;
  • Floresta Estacional Decidual Montana: de 4º de lat. N a 16º de lat. S, de 600 m até em torno de 000 m; de 16º de lat. S a 24º de lat. S, de 500 m até em torno de 1.500 m; de 24º de lat. S a 32º de lat. S, de 400 m até em torno de 1.000 m de altitude.

De acordo com a descrição do Manual do IBGE, as Florestas Altomontanas representam aquelas localizadas em refúgios ecológicos da montanha, pois possuem elevados valores de endemismo e distinção florística, além de uma fisionomia assemelhada às conhecidas “matas nebulares”, com altura de até 10 m. As árvores não crescem, pois há impedimento edáfico (solo raso) e geomorfológico (topos de montanha). No sudeste do Brasil, segundo o IBGE, essa vegetação ocorre a partir dos 1.500 m.s.m. (metros sobre o mar). No entanto, atravessando a Serra da Mantiqueira, nos deparamos com a Foto 3 abaixo.

Trata-se de um trecho florestal com mais de 20 m de altura com espécies tipicamente da Floresta Montana, porém num local com altitude pouco acima dos 1.750 m.s.m, o que já se configura como uma Floresta Ombrófila Densa Altomontana. Portanto, nem sempre a delimitação altimétrica em classes definidas está associada com a descrição da formação da vegetação no campo!

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Foto 3: Sub-bosque de trecho de Floresta Ombrófila Densa Altomontana numa altitude de 1.750 m.s.m.

Por essa característica, o sistema do Prof. Ary Teixeira inclui uma tipificação climática própria denominada de “nebular estacional” ou “nebular”, para as localidades onde o clima é estacional ou não, respectivamente, e que a seca é menor do que 160 dias e a encosta é barlavento (voltado à costa marítima). De fato, a designação de Floresta Altomontana, a qual foi descrita pelo IBGE representa apenas uma fisionomia peculiar e inerente à ação direta de massas de ar oceânicas constantes, associada a uma condição edáfica própria de solo raso.

Estudo de Caso 4:

Savana Estépica = Caatinga. HEIN?!

De acordo com o manual do IBGE, as Caatingas recebem a denominação de Savana Estépica. Esse termo costuma receber muitas críticas no meio acadêmico por não retratar fielmente a natureza florístico-fisionômico da vegetação predominante no polígono da Seca do Semiárido Brasileiro. Observe a Foto 4 abaixo de um trecho de Caatinga em Petrolina, Pernambuco.

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Foto 4: Trecho de Caatinga arbustiva, tecnicamente denominada de Savana Estépica Arborizada pelo IBGE em Petrolina, PE.

Agora me diga: Mas por que “Savana Estépica”?!

Savana é uma vegetação caracterizada por árvores esparsas em meio a uma matriz herbáceo-arbustiva proeminente.

Estepe é uma vegetação caracterizada pela ausência de árvores e arbustos. É formada por uma comunidade herbácea característica.

O que nos faz pensar que a Caatinga é um “misto” de Savana com Estepe?

Ao longo da Série “Viajando com a Fitogeografia” que compartilho no Portal eFlora, eu tive uma inspiração para entender o raciocínio do IBGE em propor esse termo a uma vegetação tipicamente Brasileira depois de percorrer paisagens como a da Foto 5 abaixo.

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Foto 5: Caatinga arbustiva (ou Savana Estépica Arborizada, segundo IBGE) próximo à divisa de PE/PI ao longo da BR 407.

Visto de longe, a fisionomia mais comum da Caatinga (a arbustiva) se assemelha a um “gramado com cactos e juazeiros isolados”. Coloco essa descrição entre aspas e é importante realçar isso aqui, pois foi a forma que encontrei de entender o por quê que o IBGE a denominou dessa forma.

Vou tentar explicar, vem comigo!!

O gramado (componente Estepe do nome), na verdade, é formado majoritariamente por Juremas, espécies do gênero Mimosa. E ao longo desse “gramado”, há Mandacarus (Cereus spp.) e Juazeiro (Ziziphus joazeiro) se sobressaindo de forma isolada uns dos outros na paisagem (componente Savana do nome). Essa foi a forma que eu interpretei o por quê denominar de Savana Estépica a Caatinga Brasileira.

Esses quatro estudos de caso demonstram aspectos dissonantes do mapeamento classificatório oficial com o que efetivamente lidamos no campo, além de problemas em introduzir termos reconhecidos internacionalmente a vegetações típicas do Brasil.

Para concluir, quero enfatizar a importância da checagem de legenda e do entendimento correto da vegetação e suas condicionantes in loco como uma condição básica a qualquer técnico e/ou analista ambiental. Também recomendo muito que, se possuir interesse em evoluir sobre a temática, analise a nova proposta de classificação da vegetação brasileira do Prof. Ary que busca corrigir algumas imperfeições deixadas pela proposta do IBGE.

A compreensão dos tipos de vegetação e sua variação ao longo do espaço só é possível através de grandes deslocamentos lineares. E é exatamente isso que busco em nossa série “Viajando com a Fitogeografia” do Portal eFlora. Conheça um pouco mais sobre a iniciativa nesse link!

Até a próxima!

Rodrigo Trassi Polisel (E-mail: [email protected])

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