10 Árvores raras da Mata Atlântica

10 Árvores raras da Mata Atlântica

A Mata Atlântica é um dos domínios de vegetação mais devastados do nosso país. Estima-se que hoje exista apenas 8% de cobertura florestal (S.O.S Mata Atlântica), incluindo remanescentes em diferentes estágios de sucessão. Trata-se de um dado relevante que ilustra o elevado grau de antropização de seus recursos naturais, um dos elementos para a inclusão do domínio como um dos 35 Hotspots mundiais de biodiversidade. Além disso, a Mata Atlântica é uma região de enorme diversidade de espécies e altos níveis de endemismos, sendo também reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera e Patrimônio Nacional.

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Mapa mostrando o antes (1500) e a situação atual (Século XXI) da cobertura florestal da Mata Atlântica. Fonte: Blog Biologando e Geografia

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A Mata Atlântica é considerada um domínio por conter diferentes fitofisionomias, sendo as principais e de maior abrangência: Floresta Ombrófila Densa, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Estacional Decidual, Floresta Ombrófila Mista, além dos ecossistemas associados.

O conceito de raridade é amplo e bem debatido na academia. De acordo com Rabinowitz (1986), a classificação de raridade envolve alguns atributos, como distribuição geográfica da espécie, preferência de habitat e abundância local. Tais atributos variam continuamente.

Assim, podemos entender que há diferentes tipos de raridade. Exemplo: Uma espécie pode possuir uma ampla distribuição geográfica, mas apresentar baixa abundância. Este é um tipo de raridade. Em outro, uma espécie pode apresentar restrita distribuição geográfica, porém apresentar localmente uma grande abundância. O estudo de Caiafa & Martins (2010) que investigou as formas de raridade na Mata Atlântica encontrou 45% das espécies presentes em apenas uma localidade, confirmando a forma de raridade Estenotípica como a principal (restrita distribuição geográfica). Caso você tenha interesse em saber qual a forma de raridade de cada espécie analisada neste trabalho, clique aqui!

 Neste post, apresentamos 10 espécies nativas da Mata Atlântica que são classificadas como raras em pelo menos uma das formas citadas nos trabalhos de referência acima.

Vamos a elas:

1) Chrysophyllum imperiale (Linden ex K. Koch & Fintelm.) Benth. & Hook. f.

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Foto: Meu cantinho verde

Esta espécie da família Sapotaceae é considerada ornamental e é conhecida popularmente por guapeba ou árvore-do-imperador que pode chegar até 30 m de altura. Suas folhas são buladas, com presença marcada das nervuras secundárias, e o bordo foliar é serreado. Dados históricos demonstram a presença da espécie para o Sudeste do Brasil, principalmente no Rio de Janeiro e Zona da Mata de Minas Gerais.

O tronco desta espécie foi muito utilizado no império para a construção de embarcações, um dos motivos dela quase ter sido extinta.

No final do século XIX, os republicanos ordenaram a destruição de todos os exemplares, pela espécie estar associada à figura do imperador. Por esses motivos, trata-se de uma das espécies mais raras da Mata Atlântica e está classificada como EM PERIGO DE EXTINÇÃO pela Portaria nº 443 do Ibama sobre Espécies da Flora Brasileira ameaçada de extinção!

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Foto: Detalhe da folha a esquerda e do caule a direita de Chrysophyllum imperiale. Fonte: Meu cantinho verde.

 

2) Paubrasilia echinata (Lam.) Gagnon, H.C. Lima & G.P. Lewis

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Fonte: Tudo sobre plantas

A árvore mais falada nas escolas, o pau-brasil (família Fabaceae), foi extremamente explorada na época da colonização para tingimento de tecidos.

Atualmente, sua madeira é muito utilizada por ser considerada incorruptível, não apodrece e nem é atacada por insetos (paraiba.gov). Apesar das iniciativas de se reproduzir a espécie a partir de sementes para utilização em projetos de reflorestamento, ela ainda está classificada como EM PERIGO DE EXTINÇÃO pela Portaria nº 443 de 2014 do IBAMA, pois a sua região de ocorrência (faixa litorânea do Sul da Bahia até o Rio de Janeiro) sofreu e sofre até hoje com o crescimento populacional aliado ao desmatamento e ao desenvolvimento da cultura cacaueira.

Esta leguminosa possui o tronco e os frutos repletos de espinhos e pode alcançar cerca de 12 m de altura. Suas folhas são compostas bipinadas. Suas flores possuem coloração amarelada, florescendo na primavera entre outubro e dezembro.

3) Humiriastrum dentatum (Casar.) Cuatrec.

imagem2Esta espécie pode chegar até a 6 m de altura. Também conhecida como pau-ferro (família Humiriaceae), tem valor medicinal. Possui folhas simples com bordas serreadas (Imagem I). O tronco é levemente rugoso e o fruto duro, motivo pelo qual também é conhecida popularmente por fruta-de-pedra. Vegetativamente, é uma espécie de difícil identificação.

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Imagem I: Rodrigo Polisel

4) Handroanthus impetiginosus (Mart. ex DC.) Mattos

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Popularmente conhecida como ipê-roxo (família Bignoniaceae), ocorre principalmente na Floresta Estacional Semidecidual, abrangendo todos os Estados onde ocorre a Mata Atlântica, exceto Santa Catarina e Rio Grande do Sul, incluindo a borda da Amazônia, Matas de Galeria do Cerrado e as “Matas Secas” da Caatinga. Embora possua uma ampla distribuição geográfica, a espécie é rara ao longo da sua faixa de ocorrência (ver tipos de raridade acima).

Sua altura pode variar de 8 a 12 m, podendo chegar a 30m no interior da mata.

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Fonte: Centro nordestino de informações sobre plantas.

Suas folhas são compostas digitadas. Sua inflorescência é uma panícula terminal, sendo os frutos capsulas septicidas (abrem longitudinalmente).

A árvores possui diversos usos, o que também explica a sua raridade. Ela é considerada na medicina popular como anticancerígena, anti-reumática e anti-anêmica, e muito requisitada na indústria madeireira, devido ao porte, condição do fuste e densidade da madeira.

5) Aspidosperma australe Müll. Arg.

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Fonte: Guatambu xpg

Popularmente conhecida como guatambu (família Apocynaceae), ocorre desde o Sul da Bahia até o Rio Grande do Sul.  Sua altura varia de 10 a 30 metros, o tronco possui casca áspera e suas folhas têm forma de lança (lanceoladas), com margens onduladas e distribuição alternada.

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As flores são pequenas com corola gamopétala e distribuem-se em panículas terminais. Sua madeira é muito utilizada na fabricação de cabos de enxada por ser resistente e retilínea, quando jovem, e na construção civil, quando adulta.  Portanto, sua raridade é explicada principalmente à exploração comercial.

6) Copaifera trapezifolia Hayne

Popularmente conhecida como copaíba ou pau-óleo (família Fabaceae), essa espécie se encontra em extinção pelo uso excessivo de sua madeira vermelha na marcenaria.

Esta espécie pode chegar até a 15 m de altura com uma copa densa e globosa. Sua flores são brancas com manchas rosa. O cálice é formado por quatro sépalas livres. Seu fruto é uma vagem que contém uma única semente. Suas folhas são compostas pinadas e com filotaxia alterna. O formato do folíolo dá o nome à espécie, já que tem a forma de um trapézio (Foto abaixo).

Trata-se de uma espécie de copaíba exclusiva da fisionomia de Floresta de Encosta (Floresta Ombrófila Densa), além de ocorrência muito ocasional em Florestas Ciliares do interior da Mata Atlântica. É uma espécie do gênero Copaifera muito pouco conhecida!

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Foto: Indivíduo de grande porte de Copaifera trapezifolia (pau-óleo) fotograda na base de campo em Juquitiba, SP. Fonte: Rodrigo Polisel

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Foto: Detalhe da Flor de Copaifera trapezifolia (pau-óleo)

7) Cariniana estrellensis (Raddi) Kuntze

O famoso jequitibá-vermelho (família Lecythidaceae), símbolo do Estado de São Paulo, é uma árvore frondosa que pode chegar até a 45 m de altura com tronco de 120 cm de diâmetro. Possui uma ampla distribuição geográfica da Mata Atlântica, embora ocorra em baixíssima densidade, próximo a 1 indivíduo adulto por hectare.

Possuem flores pequenas de cor creme formando racemos (inflorescência em cachos) axilares. Seu fruto é pixídio (fruto seco com abertura na parte superior) e elíptico que libera sementes de dispersão eólica.

Sua madeira foi muito utilizada no passado para áreas internas e suas cápsulas utilizadas para fazer cachimbo. Devido ao seu potencial na indústria madeireira, é difícil encontrar um exemplar de grande porte da espécie no interior de pequenos fragmentos.

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Cápsulas do fruto de Jequitibá

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Imagens: Arvores do Brasil

8) Machaerium paraguariense Hassl

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Imagem: Anita Stival

Esta árvore pode chegar a 23 m e caracteriza-se por possuir o caule com placas longitudinais e cicatrizes evidentes (Foto abaixo). Conhecida popularmente como farinha-seca, pau-de-alho (família Fabaceae), ocorre do Rio Grande do Sul às Florestas Semidecíduas do Nordeste (Sobral et al. 2006).

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Imagem1: Anita Stival

Suas folhas são compostas alternas e possuem folíolos com a base arredondada, bordas ovais.

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Imagem: Anita Stival

Está classificada como rara devido aos diferentes usos de sua madeira na indústria civil e pesada, além da fragmentação da Mata Atlântica.

9) Aspidosperma polyneuron Müll. Arg.

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Imagem:Arvores do Brasil

Popularmente conhecida como peroba (família Apocynaceae), esta planta pode chegar até a 30m de altura com tronco ereto e copa estreita.

Esta espécie fornece madeira de cor rosa, com ocorrência da borda da Amazônia até a região Sul do Brasil, principalmente na Floresta Semidecídua de solos férteis da Mata Atlântica. A. polyneuron é muito utilizada para a construção de embarcações marítimas, um dos fatores que inseriram esta espécie na lista de espécies raras da Mata Atlântica, além do intenso grau de fragmentação de seu habitat original. No interior da Mata Atlântica, devido à fragmentação do habitat, muitos indivíduos arbóreos de grande porte como a peroba-rosa estão morrendo com o consequente crescimento desordenado de lianas agressivas em florestas desequilibradas (Foto abaixo).

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Foto: Exemplares de Aspidosperma polyneuron (peroba-rosa).

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Foto – Indivíduo de grande porte de Aspidosperma polyneuron (peroba-rosa) em fragmento de vegetação no interior paulista (Tietê, SP) com estrutura desequilibrada e com avanço de lianas agressivas. A instalação desses cipós tem aumentado a mortalidade de muitas árvores de grande porte na floresta.

É uma árvore de crescimento lento com tronco ereto e casca grossa, acizentada e fissurada longitudinalmente.  Suas folhas elípticas (estreitas nas pontas e ampla no meio) são dispostas de forma alternada.  Sua copa é alta, densa, com râmulos trifurcados característicos o que facilita sua identificação no meio das demais árvores.

10) Araucaria angustifolia (Bertol.) Kuntze

Com ocorrência majoritariamente no sul do Brasil e em áreas de altitude elevada na Serra da Mantiqueira do Sudeste do Brasil, a espécie pode ser encontrada também na Argentina e Uruguaiaraucária (família Araucariaceae) se caracteriza por possuir um tronco colunar que pode chegar a 50 m de altura e casca rugosa com 15 cm de espessura.

Sua copa possui simetria radial em candelabro. Os galhos apresentam um desenvolvimento siléptico (galhos em pares, mais o menos no mesmo ramo). As folhas são verde-escuras, simples, alternadas, espiraladas, coriáceas com a ponta terminando em espinho. A exploração fora de controle no século XX colocou está espécie como ameaçada de extinção, atualmente ela é protegida por lei.

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Detalhe da folha.                       Disposição radial da copa.                        Tronco com casca rugosa.

Para os professores que gostariam de inserir o tema em sala de aula, a Fundação S.O.S Mata Atlântica disponibilizou uma cartilha para educadores e alunos descobrirem juntos este domínio tão rico. Para acessa-la e baixar gratuitamente, clique aqui!

Referências:

Caiafá AN & Martins FR (2010) Forms of rarity of tree species in the souther Brazilian Atlantic Rainforest. Biodiversity Conservation 19:2597-2618.

Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas de Extinção

SOS Mata Atlântica

Rabinowitz D, Cairns S, Dillon T (1986) Seven forms of rarity and their frequency in the flora of the British Isles. In: Soule´ ME (ed) Conservation biology: the science of scarcity and diversity. Sinauer Associates, Massachusetts

Revista Fapesp

 

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